Angústias eleitorais (2)

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Angústias eleitorais (2), n. 306, 27 jun. 2002.

 

 

Admita-se que realmente existam dentro do PT comportamentos majoritariamente social-democratas e de “ânsia indiscriminada pelo poder político”. Mas é preciso admitir, também, que os grandes contingentes do povo brasileiro não enxergam Lula e o PT dessa forma e depositam neles suas esperanças de mudança.

Sem entender essa leitura atual do povão, o campo popular não entenderá o que realmente vale nesta disputa e parte dele pode mesmo cair em angústia profunda. De outro lado, parte da burguesia também desabou em angústia ao ganhar consciência dessa leitura popular. Não por acaso, a “politicalha burguesa” utiliza, ao mesmo tempo, a antiga tática de demonização de Lula e do PT, e a nova tática de tentar demonstrar que Lula e o PT são iguais à “politicalha burguesa”. Cerca pelos dois lados, na esperança de que uma das duas versões “cole”.

Por outro lado, até agora não existem dados consistentes para supor que a base histórica de 30% de votos que a militância aguerrida garantia a Lula esteja se desfazendo. É verdade que uma parte da militância está desencantada com a aliança com o PL. Mas capitular diante disso e não contribuir para mobilizar as camadas populares para a vitória das bandeiras de mudança, que continuam com Lula, é o mesmo que ajoelhar-se diante da “politicalha burguesa” e deixar que a disputa do segundo turno ocorra entre dois verdadeiros representantes do capital.

A burguesia, melhor do que muitos que se acham sinceramente revolucionários e éticos, sabe que, se a disposição do povão determinar a vitória de Lula e do PT, haverá uma significativa mudança de cenários ou conjunturas. Do ponto de vista histórico, e também do momento atual, independentemente da visão crítica de quem quer que seja sobre os comportamentos majoritários no PT, a vitória eleitoral de Lula criará uma situação totalmente inusitada e impensável para a burguesia nacional e internacional. As expectativas e as pressões populares que elas forjarão tendem a levar para o brejo não apenas a política dominante, mas também os comportamentos conciliadores.

Isso por si só é uma demonstração de que o povo brasileiro, do mesmo modo que os povos da Venezuela, Argentina, Peru e Bolívia, está com uma arraigada disposição de mudança. Assim, ao invés de se angustiarem, de pensarem em votar nulo, ou no PCO, ou no PSTU, aqueles que supõem que o PT mudou de natureza deveriam entender a conjuntura que atravessamos, de profunda crise no capitalismo central e local, e confiar na percepção popular de que Lula e o PT estão do lado de cá, não do lado de lá. Esta é a marca do momento.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político

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