Angústias eleitorais (1)

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Angústias eleitorais (1), n. 305, 20 jul. 2002.

 

 

Tenho recebido cartas de bons e antigos companheiros, angustiados com o atual quadro eleitoral. Na verdade, angustiados com o comportamento de Lula e do PT. Eles alegam ser-lhes impossível votar no “PT do capital”, um PT que, “ao ser movido pela ânsia indiscriminada do poder político”, aliou-se aos “bons patrões” e “acomodou-se na vala comum da politicalha burguesa”.

Diante disso, supõem que lhes resta votar nulo, ou no PCO, ou no PSTU ou, gesto extremo, imolar-se em praça pública, no estilo dos monges vietnamitas durante a guerra contra a agressão norte-americana. Mesmo porque, acreditam, Lula terá poucas chances de chegar ao segundo turno, já que a base histórica de 30% de votos que a militância aguerrida lhe garantia, se desfaz diante do desencanto da aliança com o PL e com a “politicalha burguesa”. Concluem, então, que o segundo turno será uma disputa entre dois homens do capital, Ciro e Serra.

Confesso que fiquei impressionado com tanta angústia, que beira o desespero. Diante dela, e dos argumentos apresentados, sinto-me no dever de lhes expor publicamente meus próprios pontos de vista. Em primeiro lugar, aqueles relacionados com a idéia de um “PT do capital”. Idéia que, se aceita, levaria à conclusão lógica de que um segundo turno com Lula x Serra, ou Lula x Ciro, também seria uma disputa entre homens do capital.

Se isso é verdade, por que cargas d’água os capitais internacional e nacional, aquela parte da “politicalha burguesa” que realmente conta, se empenham tanto em derrotar Lula e o PT? Por que tanto empenho desses setores sociais e políticos dominantes em desestabilizar a candidatura Lula, mesmo à custa de ações terroristas? Por que aquilo que está tão evidente para esses nossos companheiros – “PT do capital” – sequer aparece para os verdadeiros homens do capital? Burrice? Estupidez? Maquiavelismo?

Mesmo admitindo-se, dentro do PT, a existência de comportamentos social-democratas, de uma “ânsia indiscriminada pelo poder político” e da aliança com setores da burguesia, seriam necessários argumentos mais sólidos para demonstrar que o PT mudou sua natureza. Se isso realmente houvesse ocorrido, não seria muito mais lucrativo para a burguesia levar Lula e o PT para o governo, da mesma forma que fez com FHC?

Mas, quem tem um mínimo de conhecimento sobre a burguesia brasileira, sabe que tal hipótese está totalmente fora de cogitação. O que, por si só, mereceria alguma reflexão por parte de nossos angustiados. (Continua)

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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