Amarrem os cintos

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Amarrem os cintos, n. 296, 18 mai. 2002.

 

 

Ao que tudo indica, o pânico parece tomar conta do comando tucano. Por um lado, correm notícias de que a ordem é realizar ataques diretos a Lula e a seus auxiliares diretos. Estariam ligadas a essa estratégia as notícias que procuram associar o deputado Mercadante a um suposto pedido à Previ, de ajuda a Steinbruch na compra da Vale do Rio Doce. O governo atiraria chumbo grosso para encobrir o caso da propina.

Por outro lado, o presidente do BC parece seguir a linha do ministro Malan, ambos munidos de uma autoridade moral que ninguém lhes outorgou, para exigir “clareza nos programas” da oposição. Valendo-se dos argumentos dos financistas internacionais a respeito do “risco Lula”, Armínio declarou que “ninguém poupa, ninguém constrói uma fábrica se acha que daqui a seis meses tudo vai mudar radicalmente”. Terrorismo puro, ainda mais se associarmos essa idéia às declarações do próprio Armínio, de que os fundamentos da economia brasileira “estão bons”.

A inflação estaria em queda, o nível das atividades econômicas estariam fracas e isso poderia ajudar a queda dos juros. A alta do dólar não afetaria os preços, os investimentos estrangeiros em 2002 seriam suficientes, o saldo da balança comercial estaria maior do que o esperado (disse isso mesmo) e a arrecadação foi maior que prevista. A única preocupação seria o atraso na votação da CPMF. Em outras palavras, o que estaria atrapalhando, intranqüilizando o mercado, e até apontando para o risco “remoto” do Brasil virar a Argentina, é a possibilidade de Lula vencer as eleições.

Desse modo, brandindo as “decisões erradas” do vizinho do Prata, o grupo no poder afina o discurso, afia as espadas e tenta obrigar a oposição a se comprometer com mudança nenhuma. A Argentina, sentenciou Armínio, “há cinco anos, era a primeira da turma e aos poucos foi tomando decisões erradas até que chegar ao que é hoje”. Ou, como diria o candidato Serra, para não virar a Argentina “o Brasil precisa manter a casa arrumada”, evitando a vitória da oposição popular.

Mas, se eles garantem que a casa está arrumada, por que há tanta discrepância nas informações sobre os “fundamentos econômicos”? Por que o governo chora tanto a respeito da CPMF e, ao mesmo tempo, a Receita obtém uma arrecadação mensal histórica de R$ 19,8 bilhões? E por que as projeções do “mercado” a respeito do crescimento do PIB, da balança comercial e da renda foram revistas para baixo, enquanto as da inflação e dos juros foram para cima, contrariando as projeções oficiais?

Além disso, por que o candidato oficial continua se dizendo candidato do governo e, ao mesmo tempo, faz críticas a todas as políticas de FHC, procurando “diferenciar-se” dele? Não haverá, em tudo isso, um ar de Argentina, quando era “primeira da turma”, com turbulências pela frente? Diante dessa perspectiva, se o BC só tem “cortisona”, como diz seu presidente, só nos resta amarrar os cintos.

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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