Aliança e luta

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Aliança e luta, n. 324, 07 dez. 2002.

 

 

O ataque inesperado do governador Itamar Franco ao PT, em virtude do falta de ressarcimento dos gastos do governo mineiro na manutenção das estradas federais, pode ser vista pelo menos de duas maneiras. Ou como uma das costumeiras diatribes sem sentido do governador, como boa parte da imprensa quer fazer crer, ou como um sinal do comportamento que irão adotar, diante do governo Lula, os setores burgueses que ele representa.

O bom sendo aconselha que as forças populares tomem o segundo aspecto como aquele que realmente vale. Não podemos esquecer que foi uma dessas diatribes, consubstanciada na famosa “moratória de Minas”, que deu mais consistência ao processo de afastamento dos setores burgueses e nacionalistas em relação ao governo FHC e às políticas neoliberais. E que acabou levando tais setores a desaguar na aliança com as forças populares para a eleição de Lula.

Se é assim, independentemente de considerarmos o papel do governo FHC na armação do presente incidente, podemos vislumbrar que a aliança com esses setores burgueses pode desenvolver-se em pelo menos três direções. Primeiro: a cada medida do governo Lula que desagrade os interesses específicos ou exclusivos desses setores, eles armarão um alvoroço, atacarão o PT e ameaçarão romper a aliança. Segundo: o governo Lula, para manter a aliança, capitulará diante do alvoroço e fará concessões àqueles setores, mesmo que isso prejudique os interesses populares e nacionais. Terceiro: o governo Lula tomará os interesses nacionais e populares como base, responderá com seriedade e firmeza ao alvoroço, desmascarando sua natureza exclusivista, e desenvolverá esforços para resolver as pendências e manter a aliança.

Em outras palavras: a aliança é importante para nos contrapormos aos grandes interesses corporativos neoliberais e devemos mantê-la. Mas é preciso considerar que toda aliança sempre contempla uma diversidade de interesses, alguns comuns, vários contraditórios e outros antagônicos. Portanto, toda aliança contempla algum tipo de luta, que pode resultar na capitulação de um dos lados, na manutenção equilibrada da aliança ou no rompimento dela. Em tais condições, o método para tratar a luta dentro da aliança não é uma questão secundária. E a ação do governador Itamar tem o mérito de nos alertar para o que temos pela frente.

É preciso, então, ter claro que a capitulação do governo Lula diante de exigências exclusivistas pode ser tão prejudicial quanto o rompimento da aliança com aqueles setores. Porque pode representar o rompimento de sua aliança com as forças populares e nacionais. Seu governo nem começou e as lições já estão batendo à porta. Nada como a burguesia para nos avisar que nem todos têm os mesmos interesses.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político

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