Aliados de peso

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Aliados de peso, n. 380, 18 jan. 2004.

 

 

Quem diria! Depois de tanto tempo pregando no deserto ou, ao menos, no semi-árido, consegui aliados de peso, como o ex-ministro Delfim Neto e o economista Guilherme C. Delgado. Este, em crônica no Correio da Cidadania de 03 a 10 de janeiro de 2004, comenta a tese de Delfim sobre a necessidade de “uma Reforma Tributária includente de todo o setor informal da economia”.

Segundo Delgado, a proposta do ex-ministro “é possivelmente mais relevante pelos pressupostos que contém do que pelas proposições fiscais que declara”. Tendo como pressuposto básico “a existência em expansão de um enorme ‘setor informal’, que abarca pelo menos 1/3 de toda a atividade econômica e mais de 50% da força de trabalho”, e como proposta a inclusão desse setor no PIB como “a única maneira de elevar a arrecadação, sem elevar a carga tributária, antes, pelo contrário, reduzindo-a”, o que está implícito na tese de Delfim “é a magnitude e a potencialidade de um gigantesco setor informal urbano e… (de um) amplo setor de subsistência na economia rural, com possibilidades efetivas para crescer”, mas “relegados a uma certa clandestinidade no mundo da economia real”.

Para Delgado, “é importante conhecer melhor esse gigante ignorado e, principalmente, desenhar estratégias variadas que viabilizem a geração de excedente econômico, e não apenas a extração deste excedente, como parece ser a ótica da Reforma Tributária em cogitação”. Mesmo porque, “se a discussão é sobre desenvolvimento, com inclusão de toda a força de trabalho na economia…, nós já estaríamos por hipótese trabalhando com um produto potencial, que incorporasse talentos humanos, pessoas desempregadas, terras ociosas etc., para atender a demandas historicamente reprimidas. Aí sim, estaríamos encontrando a porta de saída para nossos impasses estruturais”.

Esta é realmente a questão estratégica, enfatizada no momento em que o governo Lula anuncia um plano de obras em infra-estrutura “para atrair investimentos” e “criar postos de trabalho”. Como temos nos cansado de repetir, por esse caminho, o país pode até conhecer razoável grau de crescimento e certa taxa de aumento de empregos. Porém, certamente não conseguirá incluir na economia real aquele gigante ignorado, nem superará o desemprego, justamente porque, como as elites, parece não haver entendido que só poderemos sair do fosso em que nos meteram, como diz Delgado, “com e pelo concurso dos excluídos”.

Portanto, bem vindos esses aliados de peso. Mesmo porque, se “muita água ainda terá que rolar” para encontrar a porta de saída dos impasses estruturais, haverá muito trabalho pela frente.

 

Wladimir Pomar é analista político e escritor.

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