Alguns nós para 2005

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Alguns nós para 2005, n. 430, 08 jan. 2005.

 

 

A crer em certas análises de “esquerda”, 2004 foi um ano perdido. Como extensão, dificilmente 2005 será diferente. É verdade que há nuances, tanto para melhor, quanto para pior. Há os que comemoram uma pretensa rearticulação dos movimentos sociais e, por conseqüência, das esquerdas. Isso apontaria para o abandono do caminho institucional e partidário e para o nascimento de algo novo e diferente. Pena que não saibam definir o que realmente isso é.

Há os que, ao contrário, lastimam a desorientação dos movimentos sociais, acreditando que isso se dá por culpa da capitulação dos partidos de esquerda ao ideário neoliberal. Eles também torcem para que a fragmentação da esquerda se transforme num rompimento de vulto, que seja apoiado pelas bases e coloque o movimento de massas numa nova dinâmica de mobilização… contra o governo Lula, que foi transformado em inimigo principal.

Há, ainda, os que pouco se importam com ninharias táticas do tipo acima. Considerando negativo tudo produzido pelo atual governo, apostam que Lula terá sua liderança liquidada rapidamente, que o PT será suplantado, e que as mediocridades da política vão desaparecer na estrumeira. Isso pode demorar um quarto de século. Porém, um dia, segundo eles, o Brasil voltará aos eixos. Apenas não explicam como voltar ao que nunca existiu, já que só enxergam degradação, ou falta de eixo, na história brasileira.

Há, pois, receita para todo gosto, em 2005 e depois. Podemos deitar numa rede e esperar o Brasil ideal, por mais que demore. Podemos apoiar os esforços do PSOL, PSTU e outras correntes em fomentar uma grande cisão no PT. Podemos, com isso, supostamente, criar as condições para colocar as grandes massas em movimento. Podemos abandonar o caminho institucional e tentar alguma nova aventura, ainda não experimentada na história brasileira. Podemos… Na verdade, historicamente, essa idéia de que “podemos” sempre reaparece nos momentos de descenso da mobilização social. É quando se torna mais difícil demonstrar o erro ou o acerto das táticas políticas, e o caminho estratégico parece mais nebuloso.

Se a esquerda, em conjunto, se deixar envolver por essa idéia voluntarista, ela achará que o empenho da burguesia em derrotar Lula e quebrar o PT não passa de teatro. Achará que não vale a pena enraizar-se entre as massas trabalhadoras e populares, agora hegemonizadas pelo governo Lula e suas correias de transmissão. Achará que pode repetir impunemente alguns dos erros voluntaristas cometidos pela esquerda no passado. E achará, em última hipótese, que daqui a vinte anos ou mais, poderemos recomeçar tudo de novo. Como se vê, não são simples os nós que a esquerda terá que desatar em 2005.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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