Alguém precisa gritar

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Alguém precisa gritar, n. 212, s/d.

 

 

A equipe econômica e seu chefe afirmam que está tudo bem e que o país tem condições de suportar qualquer vendaval internacional. A alta do petróleo não teria, pois, repercussão interna alguma. Mas as taxas de juros voltaram a subir, o Real desvalorizou-se mais, os saldos comerciais caíram e aumenta a perspectiva de que o anunciado crescimento econômico, que já era pouco, não passe de mais uma bolha. A fragilidade dos fundamentos econômicos é evidente, mas ainda tem gente que acredita que agora vamos que vamos.

FHC prometeu aos Sem-Terra recursos para os assentamentos, mas um tal conselho de desenvolvimento rural negou sua liberação, por considerá-los desnecessários. O presidente “aceitou”, então, a decisão de um órgão que lhe é subordinado, imaginando que o MST e o povo brasileiro são idiotas. Algo idêntico FHC está fazendo nas eleições. Afirmou não se intrometer, mas está realizando acordos e liberando recursos inimagináveis para evitar a derrota de seus aliados, imaginando que o povo é cego e a oposição burra.

A corrupção come solta por toda a administração pública, com escândalos estourando a todo momento, mas o governo manobra para evitar as investigações e continua tentando passar a imagem de conduta ilibada. Ao mesmo tempo, há muito o governo federal atropela a Constituição e as leis, através de medidas provisórias e ordens de serviço ministeriais, mas os protestos da oposição contra esse arbítrio são ignorados ou abafados pela publicidade e pela mídia favoráveis ao Planalto. Em qualquer país um pouco mais sério, ações desse tipo seriam motivo para protestos públicos avolumados, com a responsabilização do primeiro mandatário e sua equipe de governo.

Parece, porém, haver um entorpecimento generalizado diante das barbaridades praticadas contra o povo brasileiro e o país. As pessoas parecem não mais se escandalizar do presidente dar o escrito por não escrito e o dito por não dito, de atentar contra a Constituição e contra os direitos, de impor deveres arbitrários, de mentir descaradamente. Foi pensando nessas coisas que entendi melhor o MST e Itamar Franco. Que efeito teria o MST procurando a imprensa para dizer que FHC não cumprira o prometido e que os assentados não têm como plantar? Que efeito teria Itamar avisando ao governo federal que protegeria a propriedade do presidente, da mesma forma que qualquer outra?

Nenhum, simplesmente nenhum. Praticamente ninguém tomaria conhecimento da empulhação presidencial quanto aos Sem-Terra e do uso ilegal do exército para proteger uma propriedade privada. Somente gritando, e bem alto, mesmo correndo o risco de parecer radical ou ridículo, para ser ouvido pelo Planalto e pela mídia subserviente e fazer com que o povo tome conhecimento do que se passa. Alguém mais precisa gritar, e bem alto, neste final de campanha eleitoral, para que os eleitores se dêem conta de que há mais gente disposta a enfrentar as arbitrariedades de FHC e sua trupe.

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