Algo mais que aviões

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Algo mais que aviões, 02 fev. 2000.

 

 

Depois de abrir o cofre para satisfazer aos aliados, o governo vai aprovando seus projetos nas sessões extraordinárias do Congresso e aproveita-se de fluxos financeiros favoráveis para propalar que a economia finalmente teria se encaixado nos trilhos do crescimento. Apesar da exigência do secretário do Tesouro norte-americano de que precisa persistir no ajuste fiscal, o presidente do nosso (ou deles?) Banco Central voltou de Davos eufórico com o elogio do megaespeculador George Soros, seu ex-patrão (ou atual, quem sabe?).

Também dizem as pesquisas que a popularidade do presidente subiu e nada há pela frente que atrapalhe a recuperação da governabilidade. Até o desastre ecológico causado pela Petrobrás parece ajudar. Primeiro, o Tesouro vai embolsar mais de 50 milhões de reais a título de multa. Segundo, os custos da recuperação ambiental serão da Petrobrás. Terceiro, a mídia encaminhou o noticiário desvinculando o governo de qualquer responsabilidade. E quarto, mas não o último, FHC tem novo argumento para justificar a privatização da estatal. Vôo de cruzeiro em céu de brigadeiro.

Apesar disso, nesse céu há algo mais do que aviões. Para evitar que a briga entre o ministro da integração regional e o governador do Ceará se transformasse em cangaço, FHC teve que oferecer a ambos algo mais do que um bom jantar em palácio. E, agora, os ministros Serra e Malan se estranham em torno da ação espoliadora das multinacionais farmacêuticas no negócio dos remédios, transformando em escândalo uma prática que já era rotina desses monopólios no Brasil há muito tempo. Que corrente de ar gelado disturba a tranqüilidade governamental?

Os meteorologistas se cercam de hipóteses. A grande burguesia, que jogara suas fichas na globalização neoliberal, teria se dado conta de que as transnacionais podem engolir o que resta da economia brasileira, incluindo a ela. Basta o Banespa não ser arrematado por um grupo brasileiro para que o setor bancário tenha o predomínio imediato dos capitais corporativos estrangeiros. Assim, de um momento para outro, a grande burguesia nativa entrou em pânico com a desnacionalização e vira “nacionalista”.

Junte-se isso às pesquisas não publicadas sobre o rumor surdo das ruas, à violência generalizada de uma guerra civil não declarada, à guerra fiscal real entre os estados, à discrepância de interesses regionais e federais quanto à reforma tributária, às manobras cada vez mais frenéticas com vistas às eleições presidenciais de 2002, aos repetidos desastres ecológicos, e ao salve-se quem puder da luta pela sobrevivência, que abarca dos lumpenproletários aos burgueses excluidos, e teremos motivos de sobra para explicar as turbulências nesse aparente céu de brigadeiro em que o governo divulga estar voando.

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