Alerta vermelho

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Alerta vermelho, n. 501, 27 mai. 2006.

 

 

Os acontecimentos violentos de São Paulo ensejam diversas interpretações. Mas não há dúvida de que eles demonstraram que a teoria do choque de gestão do tucanato não passa de cortina de fumaça para esconder não só a falência de uma política incapaz de reduzir significativamente as desigualdades sociais, econômicas e políticas existentes na sociedade brasileira, como também a gravidade da situação social brasileira.

Os principais setores políticos das classes dominantes simplesmente desprezam ou ignoram o que ocorre na base da sociedade. Pensam que as manifestações de banditismo são um problema cuja solução deve ficar restrita ao sistema de segurança policial, mais concretamente através de um banho de sangue. Não reconhecem que as políticas econômicas e sociais praticadas nos últimos 50 anos, seja pelo regime militar-ditatorial, seja pelos governos federais que o sucederam, principalmente pelos governos Collor e FHC, seja ainda pelos governos estaduais e municipais comandados por eles, agravaram a desintegração do tecido social do país.

Por outro lado, não deve ser desprezado o fato de essa falência do papel das classes que dominam o Brasil estar sendo reconhecida por alguns setores liberais. Isto deve servir se alerta vermelho para aqueles que supõem que os problemas estruturais da sociedade brasileira podem ser solucionados a longo prazo, sem a adoção de medidas efetivas, mesmo duras, que reduzam as desigualdades.

Os acontecimentos envolvendo o banditismo urbano paulista são uma demonstração de que programas compensatórios, por mais necessários e meritórios que sejam, não modificam a presente estrutura geradora de desigualdades, e têm limites além dos quais a desintegração do tecido social pode transformar-se em gangrena. O passivo de desorganização e desequilíbrio social, gestado pela estrutura de exploração econômica e social latifundiária e capitalista brasileira e pelo sistema predatório de dominação política, é de tal ordem que talvez não haja tempo hábil para pagá-lo em módicas prestações.

Se tivermos em conta que situações quase semelhantes ocorrem no Rio e em outras capitais do país, podemos concluir, sem muito medo de errar, que a situação social está chegando a um ponto em que as políticas compensatórias talvez já não sejam suficientes para conter e reverter o quadro de desintegração. Reformas mais profundas tornam-se prementes.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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