Alerta para terremotos

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Alerta para terremotos, n. 427, 11 dez. 2004.

 

 

O sistema financeiro se lambuza com a doce criação de dinheiro fictício. Não se lixa para a instabilidade das moedas e para as crises que isso pode causar, como as de 1994 a 1998, que torraram massas enormes desse tipo de falso dinheiro. Só a de 1998, que afetou mais diretamente a Rússia e o Brasil, queimou mais de 13 trilhões de dólares.

Era dinheiro fabricado no cassino da valorização fictícia, sem correspondência com a valorização da riqueza material gerada pelo trabalho humano. Milhões de poupadores perderam seus recursos excedentes, sem saber que a economia real impõe limites àquela falsa valorização, através dos terremotos e incêndios financeiros que fazem o dinheiro fictício virar pó. Quem lucrou, por saber disso, foram os donos do cassino, os financistas de grande calibre.

De lá para cá, o sistema financeiro tem se mantido numa instabilidade relativamente equilibrada, a ponto de alguns pensarem que ele aprendeu com as crises e que é possível confiar nele e, principalmente, na eficácia do câmbio flutuante. Porém, nada mudou quanto ao processo insano de valorização fictícia do dinheiro. Os últimos cinco anos têm assistido a uma recomposição constante da falsa massa monetária e a uma série de outros fenômenos causadores de desequilíbrios na economia e na sociedade.

É possível, então, que esteja próximo o momento em que a massa monetária fictícia deve se distanciar violentamente da massa real de riqueza material, causando abalos sísmicos de grande intensidade em muitos países do mundo. O atual processo de desvalorização do dólar, acompanhando o agravamento dos déficits gêmeos (orçamentário e da balança externa) dos Estados Unidos e causando instabilidades mais fortes na economia mundial, mais parecem os tremores e as fumarolas que antecedem a erupção de vulcões e a ocorrência de terremotos.

Além disso, como foi possível comprovar com o tremor aparentemente leve, mas que quase desestabiliza o mercado de câmbio dias atrás, o câmbio flutuante não age tão simplesmente como pensam alguns – dólar mais barato, mais compradores; dólar mais elevado, menos compradores. Há muito mais fatores de desequilíbrio presentes, a maior parte oriundos do sistema financeiro. Nessas condições, seria bom ligar os sensores e ficar alerta quanto a tremores internacionais mais violentos. Afinal, apesar de tudo que se fala sobre a solidez dos fundamentos da economia brasileira, eles talvez ainda não estejam em condições de suportar terremotos.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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