Ainda sobre tática

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Ainda sobre tática, n. 514, 26 ago. 2006.

 

 

Se a estratégia de conquista do governo federal por via eleitoral, a única que resta à esquerda neste momento histórico, deve ser a de romper com a dependência econômica, financeira e tecnológica diante das corporações transnacionais (o que não significa, necessariamente, romper com a lógica do capital, inclusive a do capital financeiro), as táticas para chegar a isso são mais complexas do que simplesmente comprometer-se em aumentar os investimentos públicos, incrementar a produção, reduzir os gastos com juros e dívidas, ou elevar os recursos para programas sociais e priorizar os interesses populares.

Talvez por isso, não haja na oposição política sequer um candidato à presidência, nem mesmo entre os que se proclamam socialistas verdadeiros, que se coloque contra as propostas de incrementar os programas sociais, fazer a economia crescer, baixar os juros, reduzir os lucros do sistema financeiro e priorizar a educação. O programa tático do PT e de Lula torna-se roupa comum na linguagem dos demais candidatos, de tal modo que as propostas parecem todas iguais.

Parte da ultra-esquerda até faz propaganda do socialismo, verbaliza seu anti-capitalismo, proclama que o processo eleitoral faliu, mas suas propostas mais fortes são o aumento de salários e melhorias para os trabalhadores. O que Marx chamaria de aspirações típicas do período burguês. A direita, assim como outra parte da esquerda, resgata o estilo udenista e collorista, clamando contra a corrupção e os banqueiros, mas também centra suas propostas concretas no crescimento econômico e na melhoria do bolsa família.

Ninguém quer se distanciar do nível atual de consciência das grandes massas da população e perder votos. A oposição de esquerda e de direita não consegue, por mais que tente, ir além das conquistas do governo Lula, no atendimento de interesses populares básicos e no manejo dos instrumentos econômicos. Mesmo quando critica a ausência de conquistas mais consistentes na geração de oportunidades de trabalho, no controle dos capitais especulativos, na disseminação das pequenas unidades produtivas urbanas e rurais, no aumento das taxas de poupança e no incremento dos investimentos produtivos, fica apenas na negação.

Não consegue produzir propostas de como transformar os programas sociais em geradores de oportunidades de trabalho, como realizar o crescimento com aumento do emprego e melhoria na distribuição da renda, como reduzir os juros sem descontrolar o controle monetário, nem como refrear a ganância financeira sem deixar que desorganize a economia. Talvez porque não saiba, ou tenha que reconhecer que suas opções não diferem substancialmente daquelas que a realidade impôs ao governo Lula. Afinal, tática não é exercício de ficção.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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