Ainda o Rio de Janeiro

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Ainda o Rio de Janeiro, n. 189, 13 abr. 2000.

 

 

A política, como o amor, parece ter razões que a própria razão desconhece. No caso do PT do Rio de Janeiro, por exemplo, apesar das divergências que pipocavam na imprensa sobre sua participação no governo Garotinho, não havia qualquer observação desairosa sobre a atuação dos membros do partido que ocupavam cargos públicos na administração estadual. Além disso, o partido apoiou as acusações corajosas do coordenador de segurança pública Luís Eduardo Soares e deu prosseguimento às denúncias sobre irregularidades no governo, seja através de militantes com funções importantes no governo, seja através da bancada do partido na Assembléia Legislativa. A bem dizer, foi isso que forçou o governador a afastar alguns de seus principais auxiliares, suspeitos de corrupção ou de conivência com ela.

Em razão das dubiedades do governador —para um mesmo fato, Garotinho consegue amealhar versões diferentes a cada entrevista que dá—, o PT decidiu romper com o governo, mas, por razões inverossímeis, continuar com seus cargos no governo. Com isso, perdeu a iniciativa política e uma rara oportunidade para esclarecer os pontos realmente divergentes entre sua prática e a do PDT no governo fluminense, assim como os pontos de convergência e aliança política (se é que ainda existam) entre os dois partidos, que poderiam justificar a presença ou permanência de petistas no governo.

Pior do que tudo, essa postura deu chance para uma recomposição por cima entre Garotinho e o bloco do ex-governador Brizola, às custas da honra e da dignidade do PT. Ambos fizeram questão de assegurar que o PT estava simplesmente sendo defenestrado. Nessas condições, era ainda mais importante que o partido do Rio houvesse mantido o tom das declarações iniciais do presidente José Dirceu —”Garotinho não pode dar ultimatos ao PT”— e esclarecido as verdadeiras razões pelas quais estava deixando o governo.

No entanto, em lugar disso, os dirigentes petistas pareceram perdidos na ânsia de pedir desculpas pelo que estavam fazendo e jurar que a separação era amigável, enquanto Brizola tripudiava sobre o que chamou de pouca competência dos militantes petistas no governo e sobre a situação da vice-governadora, acusada de indicar ocupantes em 350 cargos da máquina estadual e alcunhada por ele de Rainha de Sabá.

A rigor, no ponto em que a novela chegou, pode-se dizer que, às pretensões megalomaníacas e às ambigüidades de Garotinho, juntaram-se o maquiavelismo político do experiente caudilho gaúcho e a pouca disposição de parte do PT do Rio em defender a dignidade política do partido, resultando não só seu desgaste perante a opinião pública, mas principalmente o afundamento da candidatura de Benedita da Silva à prefeitura da cidade do Rio de Janeiro. Vai ser necessário muito esforço e muita política para dar a volta por cima.

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