Ainda o governo Lula

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Ainda o governo Lula, n. 363, 13 set. 2003.

 

 

Meus comentários sobre o governo Lula têm merecido reprovação de vários críticos. Segundo alguns deles, ao não enxergarem que aliados podem tornar-se inimigos, como seria o caso de Lula, os socialistas foram incapazes de criar governos sem concessões ou recuos, levaram revoluções a desastres e foram punidos pela história. Com isso, esses críticos transformam a história e o que está em debate em paródia ou caricatura. Seu problema consiste em que, como as virgens imaculadas, são estéreis, não geram nada.

Mas há outros que externam preocupações sérias. Justifica-se o sacrifício de parte do funcionalismo para pagar a dívida externa? É correto demitir o presidente do Incra para, segundo eles, atender à oligarquia do PMDB? Por que o saneamento deve ser aberto aos capitais externos, se o Brasil tem tecnologia para desenvolver o setor? As concessões aos ditames do FMI não seriam inclinações à direita? Por que, ao invés de tais concessões, não aplicar o programa da esquerda contra as políticas neoliberais?

Essas perguntas, porém, partem de premissas duvidosas. Supõem, por um lado, que o desenvolvimento pode ser resolvido com a tecnologia que o Brasil já tem. Como o governo busca atrair capitais externos, pensam que ele está totalmente atrelado ao FMI e às políticas neoliberais. Supõem, por outro lado, que o programa nada teria a ver com a correlação de forças. Poderia ser aplicado independentemente dela, sem mediações táticas. Bastaria não ter inclinações à direita para realizar a reforma agrária, não dar bola para o FMI, nem para o Banco Mundial, dizer aos banqueiros internacionais que seus lucros abusivos sofrerão auditoria, ou serão suspensos, e dispensar a oligarquia do PMDB e outros aliados meia-sola. Não fazendo isso, o governo torna-se inimigo para uns, e quase isso para outros.

Desse modo, esquecem que, para realizar o desenvolvimento, não basta o capital-tecnologia. Também é preciso capital-dinheiro, para investir em projetos, equipamentos, trabalhadores etc. Para resolver os problemas básicos do Brasil, como o saneamento, precisamos, pelo menos, de taxas de investimento de 25% do PIB. Isso representa, por baixo, uns 400 bilhões de dólares. Então, todos nós deveríamos discutir seriamente de onde se deve arrancar esse dinheiro, e com que força contamos para tanto. Pois será isso, e não qualquer tipo de inclinação, que deve nos dizer se devemos ou não atrair capitais externos.

Também esquecem que todos os que tentaram aplicar seus programas sem realizar mediações táticas, sem levar em conta a correlação de forças, quebraram a cara. Então, a primeira condição para fazer a crítica às manobras táticas do governo deveria consistir em compreender a necessidade da própria tática, ao invés de negá-la, ou qualificá-la de traição ao programa. E a segunda condição deveria residir no critério da verdade, que consiste em obter o veredito da prática. Mas o espaço acabou e o assunto fica para a próxima edição.

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

Você pode gostar...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *