Ainda o crescimento

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Ainda o crescimento, n. 375, 06 dez. 2003.

 

 

As previsões já pífias do crescimento econômico em 2003 sofreram um duro golpe. Os números divulgados pelo IBGE a respeito do terceiro trimestre do ano, antes considerado por nove entre dez comentaristas econômicos como o período em que a economia brasileira voltara a reanimar-se, apontaram para um crescimento ainda mais pífio e colocaram em dúvida as perspectivas anunciadas, tanto para 2003, quanto para 2004.

É evidente que também serviram para explicações dos mais diferentes tipos, procurando demonstrar que a coisa não era bem como aparecia. Diz-se que, se não tivesse havido a mudança de metodologia na reavaliação do crescimento de 2002, em 2003 certamente teríamos não um crescimento de 0,4 ou 0,5%, mas de 0,8%. É possível. Mas, que diferença isso faz para as necessidades reais de crescimento do país? Mesmo que o crescimento em 2003 fosse 1,5% ou 2,0%, a questão continuaria a mesma.

Parece haver, em certos setores da imprensa e do governo, um desvio óptico em relação ao problema central, tanto econômico, quanto social e político, que o país enfrenta neste momento. Este não consiste em saber se a atual retomada das atividades econômicas é pequena ou grande. Ou mesmo saber se tal retomada é capaz de propiciar um crescimento de 3% ou 4% em 2004. O que interessa ao país é saber se essa retomada tem suporte suficiente para ser continuada e com incremento nos anos seguintes, alcançando taxas superiores a 5%, pelo menos. O que nos leva a perguntar se a política que conteve a inflação através da recessão será capaz de estimular um crescimento sustentado para os próximos anos, e não só para 2004.

Além disso, interessa saber se tal crescimento terá capacidade de alavancar todos os segmentos em que se divide a economia brasileira – a economia popular de massas, tanto formal quanto informal, os setores produtivos que atendem ao mercado interno e os setores exportadores competitivos – e criar os milhões de empregos demandados pela sociedade. Ou será apenas capaz de estimular os setores exportadores competitivos, para os quais, inclusive, a recessão não foi um problema, como mostraram os dados sobre lucratividade empresarial?

Diante disso, ou as forças populares e o governo Lula respondem adequadamente a tais questões já em 2004, ou é quase certo que os problemas econômicos permanecerão, os problemas sociais serão agravados e os problemas políticos terão desdobramentos desfavoráveis para ambos. O resto será conseqüência.

 

Wladimir Pomar é analista político e escritor.

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