Ainda incertezas

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Ainda incertezas; 20 mai. 1998.

 

 

O quadro político continua carregado de incertezas. É verdade que, na esquerda, a dobradinha Lula-Brizola parece ter ganho novo alento depois que o PT aceitou as imposições do PDT, sem nenhuma outra compensação além da aceitação de Brizola em ser candidato a vice. É verdade também que a Convenção Nacional do PT deve sancionar a intervenção no PT-Rio. Ninguém sabe, porém, os desdobramentos dessas decisões sobre a disposição da ala esquerda do partido. Ou, o que no frigir dos ovos vai contar, sobre o ânimo do eleitorado petista do estado ante as candidaturas Lula e Garotinho.

Naquilo que se pode chamar de oposição liberal ou centrista (às vezes confundida como centro-esquerda), também permanecem as indefinições. Itamar, Sarney e Requião (por onde andará Quércia?) ensaiam um novo round na próxima convenção do PMDB, mas sinceramente ninguém acredita muito que seja para valer. Eles talvez tenham consciência de que a situação política caminha para uma maré crescente contra FHC, mas a representação política do partido foi tão corrompida pelo Planalto que dificilmente terá forças para reerguer a espinha.

Quanto a Ciro Gomes e seu PPS, alternativa a FHC dentro do próprio esquema dominante, tudo depende da evolução da economia, dos problemas sociais e da candidatura Lula. Se as coisas desandarem, não será a primeira vez que as elites migram em massa de um candidato para outro. Por isso mesmo, não podem passar despercebidas as andanças de Fernando Collor, nem as novas opções estratégicas que o PFL estuda.

Mesmo porque, apesar do sorriso largo de FHC em seu turismo europeu (ele sempre se sente bem longe do Brasil), os temores que o afligem não parecem haver findado. Sem seu dublê de voz e operador na bolsa de barganhas, e sendo obrigado a verbalizar o que lhe vai na alma, o presidente mostra uma desastrada propensão a criar problemas para si próprio.

Ante a teimosia da natureza em por à prova sua indiferença frente às calamidades sofridas pelo povo, a difusa mas crescente resistência social e as instabilidades na economia (agora é o verão russo), aumentam suas incertezas. E seu sensível figado imperial demonstra um mau humor tanto mais ácido quanto maior é sua certeza do descontentamento dos caipiras, ignorantes, burros e vagabundos que ele crê formarem a maior parte da população brasileira.

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