Ainda estratégia socialista

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Ainda estratégia socialista, n. 527, 25 nov. 2006.

 

 

Qualquer estratégia socialista no Brasil tem que considerar o fato de que, aqui, o capitalismo desenvolveu-se, em primeiro lugar, com a manutenção do latifúndio. Não precisou realizar a revolução democrática no campo, historicamente efetivada através da reforma agrária, para criar o exército de trabalho necessário para a industrialização.

A modernização capitalista do latifúndio, implantada por meio de recursos públicos, liquidou as antigas formas de trabalho e sujeição. Expulsou para as cidades milhões de camponeses, que trabalhavam e viviam nos latifúndios como agregados, rendeiros, meeiros, foreiros e outras denominações, transformou-os em força de trabalho industrial, e os substituiu nas lavouras por máquinas, bóias-frias e um pequeno número de trabalhadores assalariados permanentes. Hoje, o latifúndio capitalista expropria as terras de antigos pequenos e médios proprietários rurais, tornando-os sem-terra completos.

Na indústria, no comércio e nos serviços, o capitalismo implantou uma máquina econômica, financeira e jurídica para permitir o crescimento privilegiado de grandes empresas. A simbiose, nem sempre pacífica, entre grandes grupos oligopolistas nacionais e estrangeiros e empresas estatais, tritura e destrói constantemente os pequenos empreendimentos capitalistas, com o auxílio de uma legislação que dificulta qualquer tentativa de democratizar a propriedade. Forçado a elevar sua composição tecnológica para enfrentar a dura concorrência dos tempos globalizados, esse capitalismo deixou de ser, nos últimos anos, fator de absorção de força de trabalho, tornando-se um fator desagregador do trabalho.

Nessas condições, temos um país cujas forças produtivas desenvolveram-se de forma muito desequilibradas, tanto do ponto de vista setorial quanto regional, com um mercado interno estreito ante o conjunto de sua população. A mesmo tempo, seu capitalismo é incapaz de crescer com alta absorção de força de trabalho, distribuição menos desigual de renda e certa democratização da propriedade. Num cenário como esse, a estratégia socialista tem que considerar a democratização da propriedade como um de seus eixos. E democratização da propriedade significa, queiramos ou não, a existência e o desenvolvimento da propriedade capitalista, mesmo que em cooperação ou em conflito com a propriedade socialista.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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