Ainda economia e política

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Ainda economia e política, n. 349, 07 jun. 2003.

 

 

Há uma ação recíproca entre a economia e a política. Na vida real, uma não vive sem a outra, por mais que se queira despolitizar a economia, ou “limpar” a política de seus aspectos ou “entulhos” econômicos. A economia está condicionada a interpretações e decisões humanas e, portanto, às forças políticas que pressionam por uma ou outra decisão técnica. Decisões estritamente “técnicas” são invencionices.

Desse modo, os gestores da economia não podem dizer que as pressões políticas estão fora de seu campo de ação, a não ser que suponham estar tratando com idiotas. No caso brasileiro, o melhor seria nossos gestores financeiros reconhecerem, mesmo apenas implicitamente, que dão continuidade à política monetarista herdada de FHC, porque estão sob pressão de forças políticas poderosas, representantes dos credores e do sistema corporativo transnacional, e porque não se acham ainda em condições de enfrentá-las. Isso, pelo menos, ajudaria a estabelecer parcerias táticas mais amplas e mais sólidas.

No entanto, nossos gestores financeiros falam das pressões inflacionárias como se elas também não decorressem do endividamento interno e externo, e da oferta reprimida de bens. Repetem a ladainha da equipe malanista e desdenham as forças políticas que pretendem a adoção de outro tipo de política monetária, como se fosse impossível combinar o controle da inflação e a austeridade fiscal e monetária com o crescimento econômico. Com isso, aguçam as contradições com as forças desejosas de empreender o crescimento econômico e empanam a discussão sobre como realizar a transição da antiga para a nova política, que é o que realmente interessa à maior parte do povo brasileiro.

É verdade que existem forças que ignoram as tendências reais da economia e, principalmente, o poder das forças internacionais e nacionais que pretendem que o governo Lula mantenha inalterada a política monetarista herdada de FHC. Acham que basta decisão política do governo para fazer “meia volta, volver”, sem construir bases econômicas e políticas de novo tipo, como condição para aquela virada, e sem medir as conseqüências de uma tal mudança, achando que o Império ficará imobilizado diante dessa audácia.

No entanto, se isso é verdade, o debate da transição entre a antiga política e a nova política não pode ser pautado pela resposta a essas forças. Ele tem que ser pautado pela resposta fundamentada às forças que têm consciência das concessões táticas atuais, mas querem discutir os limites de tais concessões e as bases que devem ser construídas para realizar a transição de fato. Este talvez seja o caminho mais adequado para desembaralhar o quadro político interno e externo ao governo e criar uma nova unidade entre a política e a economia.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político

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