Ainda as eleições

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Ainda as eleições, n. 420, 23 out. 2004.

 

 

Os resultados das eleições municipais de 2004 tendem a forçar um rearranjo no quadro político nacional. Não é por acaso que a imprensa como um todo, aí incluída uma parte da imprensa de esquerda, está destacando o crescimento do PSDB como pólo da oposição ao governo Lula e, em sentido contrário, enfatiza o pequeno ou nulo crescimento do PT.

Se este partido for derrotado em São Paulo e Porto Alegre, aquele destaque se tornará uma onda, na tentativa de empurrar o governo Lula a maiores concessões para a direita. Nestas condições, se a esquerda (aqui incluído o PT) continuar se perdendo em suas análises a respeito dos resultados eleitorais, mais uma vez ela demonstrará estar despreparada para enfrentar não só os desafios táticos, como os estratégicos.

Em primeiro lugar, é urgente compreender que a correlação de forças não teve uma mudança radical, seja nas eleições presidenciais e estaduais de 2002, seja agora. Pode-se até reconhecer que, apesar disso, o governo Lula poderia ter sido mais ousado numa série de aspectos de sua política, em especial na política econômica, mas seria insensato supor que ele não teria que fazer concessões ao centro e à direita.

Pode-se também deduzir que uma política mais ousada do governo Lula poderia ter contribuído para uma vitória maior em 2004. Tal hipótese, porém, não parece corresponder aos fatos, já que, além de vitórias, ocorreram derrotas da esquerda em campanhas “politizadas”. Da mesma forma que uma boa administração não garante a vitória eleitoral (quem não lembra do governo petista do DF?), a politização pura e simples do debate eleitoral também não gera milagres. A luta política inclui inúmeras variáveis que precisam ser tomadas em seu conjunto.

Em segundo lugar, é preciso considerar que foi a esquerda (aí fortemente incluído o PT) que cresceu, apesar desse crescimento ter sido relativamente pequeno e desequilibrado. Toda a direita (aí incluído o PSDB), perdeu. Houve transferência de votos do PFL, PP e outras siglas para o PSDB, mas este partido, que não pretende vestir a carapuça mas se tornou a representação da direita no Brasil, também sangrou. Se vencer em São Paulo, ele consolidará essa representação, mas isso não mudará a correlação de forças a favor da direita.

Então, se a esquerda em conjunto fizer a leitura correta dessa situação, ela poderá influir para que o governo Lula não seja obrigado a fazer novas e maiores concessões à direita e volte a se firmar como pólo aglutinador da esquerda e do centro. Se não, pouco adiantará chorar sobre o leite derramado.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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