Ainda a tática da transição

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Ainda a tática da transição, n. 334, 22 fev. 2003.

 

 

Repito que todo petista, a não ser que olhe apenas seu umbigo, é governo, esteja ou não em cargos federais. Não se trata de vontade. Trata-se do fato de que é assim que os 52 milhões de eleitores de Lula os enxergam. É com estes 52 milhões de eleitores que os petistas terão que travar o debate sobre o governo dirigido pelo PT, porque são eles que, ao cabo, podem decidir os rumos desse governo.

Que tática adotar para diferenciar-se de FHC? Mudar radicalmente o rumo da marcha e atravessar o campo minado? Ou fazer o duplo movimento de manter por algum tempo o rumo anterior, enquanto conhece melhor o terreno, localiza as minas enterradas, desarma algumas, explode outras, e abre o caminho para mudar de rumo com alguma segurança?

É verdade que essa tática dúplice traz embutido o perigo de deixar de lado sua segunda parte. Afinal, minas podem explodir e causar baixas fatais. Assim, sempre haverá os que supõem melhor aplicar apenas a primeira parte e seguir o rumo anterior. Têm a vã esperança de que, com inteligência e diálogo, podem evitar o desastre anunciado do rumo FHC.

Preocupados com esse perigo, muitos petistas, e também não petistas, têm suplicado por um punhado de sal, um gesto de que a segunda parte será seguida e que a mudança de rumo virá. Na Índia, não foi tão difícil a Gandhi dar simbolismo ao sal das minas do país. O colonizador inglês proibira os indianos de colhê-lo. O simples gesto de fazê-lo foi um ato de rebeldia, punido pela legislação colonial.

No Brasil de hoje talvez não baste um sinal mínimo, como o sal de Gandhi. O Fome Zero não bastou. Assentamento de 5 mil famílias rurais também não. Gestos de independência na política externa, idem. Tudo isso, segundo alguns, é mero recrudescimento do projeto FHC. Então, nosso sal, para ter simbolismo, talvez precise ter escala e ser acompanhado de efeitos reais massivos.

Sugeri anistiar, ou isentar de impostos (como fazem muitos países), as milhões de microempresas que não conseguem sequer ingressar no SIMPLES. Este seria um gesto de impacto. Mas sua efetivação demanda acordo com os estados e municípios, aprovação no Congresso etc. Outras propostas idênticas, como assentar rapidamente umas 30 a 40 mil famílias, ou dar massividade imediata ao Fome Zero, também exigem preparação e organização mais demoradas. Ou seja, demandam tempo.

Em outras palavras, os petistas, como integrantes do governo Lula, não podem apenas suplicar por sal. Terão, eles também, que sugerir o sal brasileiro que aponte a mudança de rumo. Se não o fizerem, não adianta depois tentar explicar para o povão que não opinaram porque seu projeto era outro.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político

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