Ainda a Índia e nós

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Ainda a Índia e nós, n. 382, 01 fev. 2004.

 

 

Em geral, só conhecida pelos brasileiros por seus aspectos “exóticos” e por sua miséria massiva, a Índia voltou a despertar interesse em virtude da realização, quase simultânea, do Fórum Social Mundial, em Mumbai (antiga Bombaim), e da visita de Lula. Embora com programas aparentemente opostos, os dois acontecimentos se encontram no debate sobre a globalização.

Uma interpretação apressada sobre a Índia, relacionada principalmente com sua dificuldade em lidar com a miséria agravada do passado colonial, pode nos levar a crer que esse país sucumbiu à globalização capitalista, subordinando-se às desregulamentações, desculturalizações, desnacionalizações e outras ações que marcaram a onda neoliberal dos anos 1990. Esse tipo de interpretação faz tabula rasa das contradições existentes entre os próprios países que têm o capitalismo como sistema interno dominante, pretende transformar o FSM numa cruzada geral e sem mediações (ou seja, sem política) contra todos os capitalismos, e até mesmo impedir as relações entre Estados, como comentamos na crônica anterior.

A Índia não realizou as desregulamentações exigidas pela globalização neoliberal. Ela, por exemplo, mantém um firme controle sobre o câmbio e sobre o fluxo de capitais externos. Ela também não tem rigidez nas metas fiscais, compensando prováveis déficits orçamentários e evitando a inflação através de políticas consistentes de crescimento de seu parque industrial e tecnológico, da produção e do emprego. Ela exerce, ainda, um protecionismo explícito, por razões religiosas, sobre sua produção cultural e, ao invés de abrir mão de seu Estado nacional, ela o tem reforçado constantemente, na atualidade, inclusive, sob o manto de um forte viés nacionalista.

É evidente que nada disso pode diminuir a dolorosa impressão de sua miséria massiva, das perseguições étnicas e religiosas, muitas das quais promovidas pelo partido governante, e da abominável discriminação social, que continua considerando como párias uma importante parcela da população. No entanto, a rigor, a globalização capitalista tem muito pouco a ver com tudo isso. Alguns desses problemas estão fincados na milenar história hindu, outros foram agravados pela colonização britânica e ainda outros são fruto da complicada história pós-independência, que por algum tempo tentou combinar capitalismo e socialismo estatal, sem conseguir resolver os grandes problemas sociais do país.

Assim, se a realização do Fórum Social Mundial em Mumbai pode ajudar na incorporação da Ásia aos debates sobre o capitalismo e sua globalização, não é possível negar o papel que a Índia vem tendo para evitar o domínio mundial de algumas grandes potências capitalistas, nem desconsiderar suas experiências de crescimento econômico. Só isso já seria motivo suficiente para a visita presidencial brasileira àquele país.

 

Wladimir Pomar é analista político e escritor.

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