Ainda a imperiosa realidade

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Ainda a imperiosa realidade, n. 530, 16 dez. 2006.

 

 

Se tivessem examinado em profundidade tais dificuldades, mesmo considerando que teria sido possível avançar mais, talvez houvessem avaliado, junto com a maioria do povão, que interessa mais, a todos os socialistas e ao povo brasileiros, ter um governo democrático do que regredir ao pântano neoliberal.
Outra contradição da realidade brasileira confronta os socialistas. Por um lado, a burguesia é hegemônica, ideológica e politicamente. Ela criou a atual estrutura jurídica, e tem poder sobre a economia e o Estado. Por outro lado, o povo elegeu, pela segunda vez, dentro das regras da burguesia, um governo de viés democrático, com participação popular, socialista e comunista, tendo à frente um líder oriundo da classe operária.

Se tal hipótese fosse sustentada por qualquer militante de esquerda, há pouco mais de 20 anos, ela seria desqualificada, na melhor das hipóteses, como sonhadora. Não eram poucos os intelectuais da esquerda que enxergavam no PT apenas um eterno partido de oposição, simples canal das reivindicações dos trabalhadores, e fiador de seu comportamento civilizado, para que a democracia representativa fosse mantida.

Em virtude de suas crises, e do crescimento do movimento social e político dos trabalhadores e demais camadas populares, a burguesia foi compelida, porém, a fazer concessões e engolir sapos. Não pôde evitar a ascensão de um governo dirigido por Lula. No entanto, ao que parece, para alguns setores socialistas, essa ascensão significava não uma derrota tática da burguesia, mas a derrota. Em tais condições, o governo Lula tudo poderia.

Como esse “tudo” teve que ser reduzido a “pouco”, diante das dificuldades da realidade, e dos erros cometidos nessa situação nova e complexa, foi mais fácil àqueles setores qualificar Lula e o PT de traidores. Se tivessem examinado em profundidade tais dificuldades, mesmo considerando que teria sido possível avançar mais, talvez houvessem avaliado, junto com a maioria do povão, que interessa mais, a todos os socialistas e ao povo brasileiros, ter um governo democrático do que regredir ao pântano neoliberal.

Afinal, mesmo avaliando o governo Lula com olhar crítico, não se pode negar que ele tem sido capaz de recuperar a soberania nacional (mesmo com uma retórica de baixo tom), impedir a criminalização dos movimentos sociais populares, assim como dos socialistas e comunistas, ampliar a participação popular no âmbito do governo e da sociedade, e fortalecer a participação do Estado na economia, no desenvolvimento científico e tecnológico do país, e na disseminação da educação, da saúde e da cultura populares.

No contexto brasileiro, consolidar um governo desse tipo, e abrir a perspectiva de sua continuidade por um período razoável de tempo, é uma das condições para avançar na realização de reformas que mudem (mesmo que passo a passo) o atual tipo de capitalismo existente no Brasil, quebrando o monopólio das corporações empresariais e ampliando de forma consistente a participação do capitalismo democrático (micros e pequenas empresas privadas, urbanas e rurais), da economia solidária e das empresas estatais. Aí sim, teremos começado a abrir uma perspectiva para o socialismo.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

Você pode gostar...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *