Ainda a experiência chinesa

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Ainda a experiência chinesa, n. 539, s/d.

 

 

Como é possível que hoje a China seja o maior foco de investimentos diretos estrangeiros do mundo? Porque, ao contrário do supõem os neoliberais, além de haver avançado na regulação e no combate à corrupção, e praticar inflação baixa e câmbio administrado, a China tem, principalmente, operado políticas econômicas que apontam claramente para um crescimento sustentado, o verdadeiro interesse dos capitais externos.

Outro exemplo que pode ser útil aos atuais desafios do Brasil é o uso que a China faz do câmbio como instrumento de política econômica. Os chineses também copiaram em boa medida o sistema de câmbio administrado flexível que já foi praticado no Brasil. A diferença é que, enquanto eles desvalorizavam sua moeda para dar competitividade a seus produtos, os neoliberais brasileiros valorizaram artificialmente o câmbio, para depois deixá-lo flutuar com baixo nível de controle. Retomar o câmbio administrado, como já propõem alguns economistas brasileiros, pode dar competitividade aos produtos brasileiros no mercado internacional e auxiliar o crescimento.

Os chineses também têm mantido em nível muito baixo as taxas de juros, de modo a estimular os investimentos privados e públicos, e, ao contrário do que dizem os neoliberais, têm realizado um controle muito firme sobre os capitais de curto prazo. Só admitem a entrada de capitais de longo prazo, voltados para investimentos em setores constantes do seu Guia de Investimentos Estrangeiros, para adensar suas cadeias produtivas, e introduzir novas e altas tecnologias na economia do país.

A China é supostamente tida como não observadora de contratos, sem agências reguladoras, com regulação fraca, e um dos países mais corruptos do mundo. Ou seja, tudo que os neoliberais consideram incompatível para a atração de capitais. Então, como é possível que hoje a China seja o maior foco de investimentos diretos estrangeiros do mundo? Porque, ao contrário do supõem os neoliberais, além de haver avançado na regulação e no combate à corrupção, e praticar inflação baixa e câmbio administrado, a China tem, principalmente, operado políticas econômicas que apontam claramente para um crescimento sustentado, o verdadeiro interesse dos capitais externos.

Essas políticas comportam uma série de combinações estratégicas, que incluem, entre outras coisas, os quatro grandes feriados de uma semana a dez dias, para estimular o turismo interno e o consumo; a redução das jornadas legais de trabalho a 40 horas semanais, e da aposentadoria aos 60 anos, para evitar o crescimento do desemprego; e o crescimento constante das rendas, acompanhando o crescimento do PIB, para reforçar o mercado interno e evitar polarizações sociais. As altas taxas de poupança, os salários nominais baixos e a grande atenção à educação são apenas aspectos de um conjunto muito amplo de políticas de desenvolvimento econômico e social.

Em outras palavras, os neoliberais não entendem nada de China, não são sérios no tratamento daquela experiência, e apenas brandem espantalhos, procurando impedir que o Brasil aproveite alguns aspectos úteis da experiência chinesa. De qualquer modo, o que nos interessa é mostrar que os problemas reais de concentração de renda e de propriedade estão na raiz das travas do crescimento brasileiro. O resto é conseqüência.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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