Ah, essas elites!

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Ah, essas elites!, n. 165, 23 out. 1999.

 

 

Frei Caneca era sacerdote e letrado, embora filho de um tanoeiro. Não queria a presidência, que naquela época não existia. Apenas lutava pela República, numa época em que o Brasil era colônia e, logo depois, império independente. Participou da revolução pela independência, em 1817, e da Confederação do Equador, contra o império, em 1824. Foi fuzilado.

João Cândido era marinheiro e iletrado, embora fizesse versos. Não pretendia nem chegar a oficial. Só queria acabar com a humilhação da chibata, que vergastava as costas dos marujos. Dirigiu a revolta na baía da Guanabara, em novembro de 1910, assumindo o comando da esquadra, que tinha poder de fogo para destruir o Rio de Janeiro. O Congresso aprovou, em regime de urgência, o fim dos castigos corporais na Armada e a anistia aos revoltosos. Um mês depois, mesmo sem haver participado da revolta do batalhão naval e do cruzador Rio Grande do Sul, ele e seus companheiros pagaram caro a ousadia anterior. Vários foram fuzilados e João Cândido amargou anos de prisão.

O que tem a ver uma coisa com a outra e, ambas, com a situação atual? Simplesmente uma linha de conduta histórica das elites brasileiras. Elas têm horror a povo, a cheiro de povo, e jamais vacilaram em esmagar, de uma forma ou outra, os populares que se opuseram a elas. Como um filho de tanoeiro, mesmo frade e letrado, podia opor-se à metrópole e ao imperador para proclamar a República? Como um marujo negro e iletrado ousava demonstrar a capacidade de comandar a esquadra, como se almirante fosse? Imperdoável!

Da mesma forma que o general Figueiredo, as elites brasileiras preferem o cheiro dos cavalos ao cheiro do povo, principalmente se forem de raça e acompanhados do aroma excitante do dinheiro que podem render. Os senhores de engenho transformaram-se nos barões latifundiários, evoluíram de senhores de escravos para coronéis sertanejos e fazendeiros cobradores de aforamentos, metamorfosearam-se em industriais e comerciantes, modernizaram-se em burgueses mecanizados e informatizados, ou em intelectuais da academia, mas não perderam sua natureza de aversão ao povo.

Só quem não conhece sua história e sua natureza poderia supor que essas elites fossem capazes de aceitar, numa febre de democratismo e salvação nacional, um trabalhador na Presidência da República. Nem tanto por ter curso primário incompleto. Poderia até ser letrado, como Caneca, ou se dispor a fazer o máximo de concessões, como Cândido. O problema é o exemplo de trabalhador, povo, negro, demonstrando que sabe governar. Se depender delas, Lula ficará, enquanto viver, como presidente de honra do PT. E olhe lá!

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