Afinal, o que está em jogo?

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Afinal, o que está em jogo?, n. 473, 05 nov. 2005.

 

 

Na edição passada do Correio, Luiz Antonio Magalhães nos alerta, sabiamente, que “a guerra está só começando”, opondo o tucanato-pefelista ao PT e ao governo. Apesar disso, há quem acredite que, neste momento, cabe à esquerda construir uma frente socialista, concentrando-se na radicalização da democracia participativa, no cotidiano do povo, no questionamento do vanguardismo e na composição de alianças programáticas.

Na prática, a coisa complica-se quando se deduz daí a necessidade de fazer oposição aos conservadores capitalistas, tanto históricos (PSDB, PFL, etc?), quanto convertidos (PT, etc?). E enrola-se quando a ameaça destemperada de Arthur Virgílio e ACM Neto, de dar uma “surra” em Lula, recebe o apoio e solidariedade de quem se diz “de esquerda”. Esse é o problema, tanto da esquerda, quanto da direita, quando não sabe o que está em jogo.

O caso da vitória do “não” no referendo sobre desarmamento, é típico. A direita mais radicalizada, com a hipocrisia que a caracteriza, levantou a bandeira dos direitos civis e foi muito longe nisso, associando-a ao direito às armas. Uma parte do povão, que está mais diretamente sob ameaça do banditismo social e policial, evitou a promessa e votou “sim”. Outra parte votou “não”, menos por considerar o Estado falido, e muito mais na esperança de conquistar o direito às armas. É difícil dizer se algum dia a direita vai se arrepender de haver colocado em jogo esse “direito”.

No caso da conjuntura atual, a maior parte do povão tem mais consciência do que muitos esquerdistas sobre o que realmente está em jogo. O governo e o PT estão, há vários meses, sob um bombardeio constante e poderoso da grande imprensa, da oposição parlamentar e de parte da esquerda. Um agravante nesse quadro é que o PT, sem acertar contas completas com aqueles dirigentes que cometeram irregularidades e delinqüências, continua em dificuldade para passar à contra-ofensiva política. Apesar disso, o apoio popular ao governo Lula não desmoronou, como supunham a direita e a ultra-esquerda.

Essa postura do povão colocou em crise a meta de impor o impedimento a Lula e retornar a direita ao governo. Com seu flanco caixa 2 aberto, a ala mais radical da grande imprensa e do tucanato-pefelista entrou em desespero e decidiu apelar para a grossura e para a provocação de baixo nível. As denúncias forjadas, da revista Veja, e as ameaças de desforra física dos parlamentares do PSDB e do PFL são um indício seguro de que a guerra não só está no começo, como está assumindo um caráter prá lá de sujo.

Isso, porque o que está em jogo não é uma disputa inter-conservadora, mas a sobrevivência dessa “raça” democrático-popular que teve a ousadia de conquistar o governo (ainda não o poder) contra a nova oligarquia tucano-pefelista. Na prática da vida, queiram ou não alguns sonhadores, a experiência está mostrando que não é fácil escapar de um dos pólos, quando as contradições se extremam. Principalmente, se não se sabe o que realmente está em jogo.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

 

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