Adeus, mesmice!

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Adeus, mesmice!, n. 422, 06 nov. 2004.

 

 

Os resultados eleitorais mostram que o PT continuou crescendo, embora em ritmo muito inferior ao previsto. Por outro lado, eles indicam não apenas um arrefecimento do empuxo petista, mas também um movimento contrário de seus aliados federais. Pode estar ocorrendo com o PT e com Lula algo idêntico ao que ocorreu com o PSDB e FHC, logo após a crise de 1999. Segmentos sociais, que lhes deram suporte, começaram a procurar saídas para o fracasso econômico e, em 2002, bandearam-se para Lula.

Por exemplo, não é difícil identificar, nas derrotas do PT em São Paulo, Porto Alegre, Belém e Goiânia, a participação decisiva do PPS e de parte do PMDB. Em outras palavras, de expressões políticas de setores do empresariado, das classes médias e mesmo de camadas populares que apoiaram Lula em 2002. Certos ou não, estão descontentes com o tratamento dado ao sistema financeiro, as ambigüidades econômicas, os indícios pouco consistentes de crescimento, os problemas sociais não resolvidos e a hipótese do PT haver se tornado um partido igual aos demais.

É evidente que o PT conseguiu uma votação expressiva dos pobres e das periferias. Mas, como uma parte significativa desses pobres e dessas periferias votou nos adversários do PT e contribuiu para a vitória deles, pode-se tanto acreditar na manchete “PSDB impede avanço da onda vermelha do PT”, quanto na “Onda vermelha do PT continua sua expansão”. Qualquer uma delas tem seu quê de verdade porque são indícios contraditórios de tendências que podem mudar a correlação das forças políticas, mas ainda não a modificaram.

Assim, a correlação de forças ainda é relativamente favorável ao PT. Mas não é impossível que as mudanças em curso nas bases sociais do petismo levem a uma total reversão nas tendências de crescimento do PT. Isto pode colocar em risco a vitória de Lula em 2006. Ou, pode levá-lo a um tipo de vitória, como a de FHC entre 1999 e 2002, que foi seguida por um longo e doloroso processo de isolamento e declínio.

Tudo depende de como o PT avaliará os problemas acima. Pode achar que os adversários exploraram bem os pontos de rejeição de seus candidatos, ou a incapacidade de construir alianças, e restringir-se a ajustes tópicos de acomodação dos aliados políticos. Ou pode voltar-se para o que ocorre nos subterrâneos da sociedade e realizar correções mais condizentes com tal realidade. Uma coisa, porém, é certa. Qualquer que seja a avaliação do PT, ele pode dar adeus à mesmice política. PSDB, PFL, PPS e parte considerável do PMDB já deram mostras de que, como os abutres que infernizaram Prometeu, vão querer devorar o fígado do PT e do governo Lula.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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