Acertar contas com ambos os lados

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Acertar contas com ambos os lados, n. 519, 30 set. 2006.

 

 

A trama do dossiê Vedoin, envolvendo petistas, tornou-se o cavalo de batalha da oposição para impor um segundo turno a Lula. E continuará a ocupar as manchetes e páginas e páginas dos jornais, certamente mesmo após as eleições. Todas focando quase exclusivamente a origem do dinheiro apreendido.

É evidente que a trama não existiria se os “inteligentes dirigentes” petistas fossem menos idiotas e, além de estarem colocando em risco uma eleição que parecia definida, se preocupassem com a hipótese de estarem sendo conduzidos a uma arapuca. Para isso, bastaria terem se perguntado por que um escroque calejado, aceitaria tratar de tal assunto por telefone (certamente grampeado), não ter medo de perder o benefício da delação premiada, e voltar a ser preso.

Não fizeram essa pergunta porque sua concepção de política há muito descartou a luta de classes e a obrigação do PT manter sua diferenciação em relação aos partidos dominantes. Assim, se sua malfeitoria trouxe à baila, mais uma vez, a necessidade do PT ajustar suas contas ideológicas e políticas com aquela concepção, isso não significa acompanhar a unânime avaliação oposicionista sobre o caso. Há algumas perguntas que qualquer idiota como eu anda se fazendo.

Se Vedoin enviou apenas uma parte fajuta do tal dossiê para ser entregue aos petistas, isso significa o quê? Que o seu “arrependimento” e sua delação à PF foram uma encenação? Sem a encenação da entrega de uma “prova”, seria justificável a prisão dos “petistas”, mesmo com o bolo de dinheiro? E, se foi encenação, foi combinada com quem? Com a PF? Com a promotoria pública? Com outros atores?

Sabe-se que o dossiê existe, é enorme, possui uma montanha de denúncias e foi entregue à promotoria pública, “após a delação”. Mesmo aceitando-se esse “após”, por que a publicação do conteúdo do dossiê é menos importante do que a descoberta da origem do dinheiro? Além disso, se no meio do enredo Vedoin também estava “conversando” com “profissionais” tucanos, incluindo um ex-ministro, o que isso significa? Apenas o famoso cúmulo da coincidência? Ou que somos todos idiotas em supor que coincidências desse tipo existem?

Outra coincidência, difícil de qualquer idiota como eu acreditar, é que o ex-agente da PF, preso com o “dirigente petista de MT”, seja totalmente estúpido, e tenha apontado o dedo para Freud Godoy, no Palácio do Planalto, apenas para fazer uma ação diversionista e salvar o mandante Lorenzetti. Em outras palavras, na crise de 2005, as ações ilícitas de um grupo de dirigentes petistas deram armas à direita para golpear o partido e quase destruí-lo. Nesta crise, remanescentes desse mesmo grupo planejaram outras ações ilícitas, mas tudo indica que foram “auxiliados” por “profissionais” da direita que, apesar de todos os cuidados, deixaram seu rabo à mostra. É um bom momento para acertar as contas com ambos.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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