Acertar as contas com o neoliberalismo (2)

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Acertar as contas com o neoliberalismo (2), n. 535, s/d.

 

 

Se os neoliberais pautarem o debate, e tiverem suas propostas adotadas pelo governo de coalizão, corremos o risco de levar o país a novo desastre. É hora de acertar as contas teóricas e práticas com essa corrente, e realizar um debate mais profundo a respeito do tipo de crescimento econômico que as forças democráticas e populares querem para o Brasil.

Os neoliberais afirmam que o atual ambiente de negócios é desfavorável, impedindo investimentos privados. Isto é evidente se olharmos para a economia informal, para as economias familiares rurais, para as micro e pequenas empresas, e para alguns segmentos empresariais médios. Isso parece evidente se nos voltarmos para os setores que dependem de um câmbio mais favorável para exportarem, ou que precisavam ter se preparado para atender a um crescimento rápido da demanda, como é o caso dos transportes aéreos.

Mas isso certamente não é evidente para o sistema financeiro e grandes grupos econômicos nacionais e estrangeiros. As empresas do sistema financeiro vêm tendo lucros recordes. E grandes empresas, de diferentes ramos industriais e agrícolas, têm obtido alta lucratividade. Empresas estrangeiras e nacionais têm participado agressivamente dos leilões de energia elétrica, embora algumas estejam mantendo seus projetos vencedores na gaveta, como forma de pressionar por mais concessões. Por trás da acusação de ambiente desfavorável de negócios, há manobras de grandes grupos, para obter lucratividade ainda maior.

Por fim, mas sem esgotar o assunto, os neoliberais estão preocupados em impedir uma demanda superior à oferta, de modo a evitar pressões inflacionárias. Tal preocupação é razoável, mas há evidências de que a demanda foi demasiadamente comprimida pela década de ferro da política neoliberal. Mesmo a sensível elevação do poder de compra das populações de baixa renda, durante os quatro anos do primeiro governo Lula, foi incapaz de pressionar a oferta e causar inflação. Assim, se a preocupação com o aumento da oferta deve ser constante, tendo em conta indícios de capacidades produtivas próximas do limite, não se pode omitir que ainda há uma forte compressão da demanda interna, que deve ser aliviada.

Em resumo, os neoliberais continuam com suas antigas avaliações. E propõem as mesmas soluções, que aplicaram durante mais de 10 anos. Apesar de desastrosas, para a economia e para a maior parte dos brasileiros, os neoliberais querem retomá-las com toda a força, a pretexto de contribuir para o crescimento nacional.

Se pautarem o debate, e tiverem suas propostas adotadas pelo governo de coalizão, corremos o risco de levar o país a novo desastre. É hora de acertar as contas teóricas e práticas com essa corrente, e realizar um debate mais profundo a respeito do tipo de crescimento econômico que as forças democráticas e populares querem para o Brasil.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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