Acertar as contas com o neoliberalismo (1)

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Acertar as contas com o neoliberalismo (1), n. 534, s/d.

 

 

Os neoliberais pretendem jogar sobre os ombros do governo Lula as travas que eles próprios armaram para impedir o crescimento.

A ofensiva neoliberal para pautar a política econômica do governo Lula tem por base uma análise que só enxerga a história como série numérica. Não relaciona os números da economia a situações sociais e a decisões políticas. Por exemplo, afirma que a taxa média de crescimento da geração elétrica, de 10% ao ano, entre 1960 e 1980, teria caído para 3%, após 1980, porque o governo Lula interrompeu as privatizações e aumentou as incertezas regulatórias. Omite o principal: que a queda naquela taxa de crescimento, a partir dos anos 80 e durante os anos 90, ocorreu no período em que as idéias neoliberais e as privatizações foram predominantes.

Ao avaliar o desempenho medíocre do crescimento, os neoliberais afirmam que, nas últimas décadas, os investimentos caíram, enquanto a arrecadação de impostos subiu de 25% para 38% do PIB. Isto teria colocado sérios entraves ao crescimento, ao implicar grandes transferências de recursos do setor privado para o público. Omitem que o salto na carga tributária ocorreu na década de estagnação dos governos Collor e FHC. E que tal salto esteve relacionado à transferência maciça de recursos do setor público para o setor privado e do setor produtivo para o setor financeiro, em função das privatizações e do endividamento. Em outras palavras, a carga sobre o povão aumentou para financiar os setores privados privilegiados.

Os neoliberais procuram apontar resultados positivos no processo de privatização. Haveria evidências de aumento de produtividade nas empresas públicas privatizadas. Eles desdenham as evidências de aumento da produtividade em empresas públicas não privatizadas, o que os obrigaria a admitir que a propriedade estatal não é obstáculo à elevação da produtividade.

Mais grave, porém, é omitirem que as privatizações atraíram capitais nem sempre para ampliar o parque produtivo nacional e adensar suas cadeias produtivas, mas para desindustrializar o país e aumentar o poderio oligopolista das corporações transnacionais. Além disso, nunca é demais lembrar os criminosos financiamentos públicos às empresas compradoras dos ativos públicos, e o super-endividamento resultante de um processo que foi implantado a pretexto de reduzir a dívida pública.

Em outras palavras, os neoliberais pretendem jogar sobre os ombros do governo Lula as travas que eles próprios armaram para impedir o crescimento. E há mais.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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