A tática da transição

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | A tática da transição, n. 332, 08 fev. 2003.

 

 

Os jornais continuam ecoando o pretenso incidente envolvendo a bancada do PT e o ministro Palocci. Como não se cansam, nem se cansarão, de aproveitar qualquer oportunidade para causar cizânias no PT, entre ele e seus aliados e, principalmente, mostrar que os compromissos assumidos em campanha foram esquecidos em prol do pragmatismo das políticas neoliberais possíveis.

Se olharmos com atenção as cobranças “pela direita”, veremos que elas não se distinguem das cobranças de alguns setores do PT, “pela esquerda”. Ambos utilizam-se do mesmo argumento: Lula já deveria, desde o primeiro dia, haver rompido totalmente com as políticas neoliberais de FHC e estar realizando as mudanças com as quais o PT está comprometido. Ou, como disse o editorial do Correio, deveria ter montado o cavalo chucro dentro do próprio estábulo.

As cobranças “pela direita” visam desacreditar Lula e o PT e preparar o terreno para, mais cedo ou mais tarde, “decapitá-lo”. As cobranças “pela esquerda” são de petistas que divergem ou não entendem as táticas do governo. Por isso, confundir as duas e tratá-las como se fossem um só, apontando aos petistas críticos o caminho da saída, não resolve nenhuma delas.

Colocar a nu a dimensão real dos rombos e do estado da nação, assim como as armadilhas deixadas pelo governo neoliberal, é a condição fundamental para responder a ambas. Se membros do governo continuarem elogiando FHC, Malan e suas políticas, ficará difícil não só responder à direita, como explicar à esquerda, e aos que votaram no PT pelas mudanças, que a tática atual de transição é necessária. Nessas condições, é preciso utilizar métodos diferentes de levantar e expor a herança fatídica do neoliberalismo.

À direita, é preciso responsabilizá-la pelo caos do país. Não se pode deixar o Estadão, as Folhas, Veja etc. posarem de santos. Os brasileiros precisam saber que eles ajudaram, com empulhações, FHC a enganar o povo e destruir o país. Não se pode deixar sem resposta insinuações, acusações e maledicências que visam desqualificar o governo Lula, mesmo sutilmente. Esse setor da grande burguesia permanece em guerra contra Lula e o PT, e é necessário armar as defesas adequadas e responder a cada golpe com um golpe proporcional.

À esquerda, é preciso envolver os petistas no levantamento e na exposição dos destroços causados pela Era FHC. Mais: é preciso discutir com todos eles o fato de que são governo. Grande parte dos petistas ainda não tem consciência desse fato. Não sabem como agir sendo governo, mesmo que não estejam em postos, cargos ou funções de governo. Não têm idéia de que, antes, na oposição, podiam criticar, sem estarem obrigados a apresentar soluções, mas agora isso não é mais possível. Podem e devem criticar, mas precisam apresentar propostas de solução e demonstrar sua viabilidade.

O PT precisa criar as condições para essa discussão, envolvendo todos no espírito de que são governo. Isto é fundamental para unificar o partido em torno do governo Lula, manter a aliança pelas mudanças e isolar a direita raivosa.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político

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