A síndrome programática

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | A síndrome programática; 11 jun. 1998.

 

 

Desde 89, quando conquistou a chance de chegar à presidência, a esquerda é cobrada pelas elites a apresentar programas detalhados de governo. Com esta síndrome, em 89 e 94, produziu tratados que, embora fossem linhas gerais de atuação governamental, nada diziam ao eleitorado,

As campanhas Lula se esfalfaram para justificar suas propostas. Enquanto isso, Collor apresentou-se como o caçador de marajás e o homem que daria o tiro único na inflação. E, FHC, tendo por base uma estabilização monetária que tudo resolveria, mostrou uma mão que prometia emprego, educação, saúde, agricultura e segurança. Como a vida demonstrou, nada que fosse para valer.

Para 98, a esquerda comprometeu-se a ficar livre daquela síndrome e lutar pelos pontos básicos que resolvam os problemas do país e toquem o eleitorado. Porém, pelas notícias, as coisas apresentam-se confusas.

Parece manter-se o receio de um confronto aberto contra a política de estabilidade de FHC, embora ele mesmo tenha provado que uma estabilização monetária pode servir a Deus ou ao diabo.  Sua estabilização, que inclue, entre outros, recessão produtiva, desemprego e altas taxas de consumo das elites no exterior, está na raiz dos graves problemas atuais do país e do povo. Orienta-se para beneficiar exclusivamente aos grupos financeiros internacionalizados.

Como é possível, pois, propor uma política de crescimento econômico, que em tese se choca com a estabilização de FHC? Ficando na defensiva, deixando de atacar a estabilidade de FHC e, portanto, reduzindo as propostas de crescimento às experiências dos governos populares que, embora positivas, são muito tímidas frente às necessidades do povo brasileiro?

Ora, nas atuais condições, uma política de crescimento, com uma séria redistribuição da renda, só será efetiva se a escala da democratização da propriedade da terra e do financiamento à pequena e média produção agrícola e industrial alcançarem uma magnitude elevada e se as taxas de consumo das elites forem contidas e convertidas em altas taxas de poupança para investimentos produtivos.

Em outras palavras, o que interessa ao povo e ao país é saber se a reforma agrária será para valer, se a produção agrícola vai ser financiada e os preços garantidos, se os pequenos e médios industriais terão financiamento mesmo, se o poder aquisitivo dos trabalhadores vai subir, se a inflação ficará contida, e se os ricos vão pagar impostos para o governo investir em saúde, educação e moradia.

Mais do que estímulo a experiências positivas, o povo e o Brasil precisam de escala, para ganhar massa crítica e mudar sua face. FHC vai dizer que tudo isso gera inflação. Assim, sem enfrentar estas questões, corre-se o risco de não convencer ninguém. A síndrome programática terá sofrido uma mutação, mas continuará uma síndrome perversa.

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