A síndrome do escorpião

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | A síndrome do escorpião, n. 342, 19 abr. 2003.

 

 

A presente euforia do chamado mercado em relação à política monetária do governo Lula e a seu empenho em realizar as reformas da previdência e tributária e discutir a autonomia do Banco Central, na suposição de que tais reformas serão realizadas de acordo com os parâmetros desejados pelo mesmo mercado, faz lembrar a síndrome do escorpião.

Todo mundo conhece a história do escorpião que pediu ao sapo para atravessá-lo a salvo para a outra margem do rio. No meio do caminho, o escorpião não pode resistir ao desejo de enfiar seu ferrão mortal no sapo, matando-o. Ao afundar com ele, ainda o culpou por não ter antídotos que neutralizassem seu veneno.

Essa também parece ser a síndrome irresistível do mercado. O governo Lula está tentando acalmá-lo por meio de medidas duras de contingenciamento, para obter altos superávits fiscais e garantir o pagamento do serviço da dívida, e parece disposto até mesmo a fazer concessões substantivas quanto à previdência, ao sistema tributário e ao Banco Central, ao mesmo tempo que busca alternativas para retomar o crescimento. Ou seja, está se dispondo a carregar o mercado às costas, enquanto faz a travessia do rio tormentoso da economia herdada do reinado de FHC.

O que está fazendo o mercado? Está trazendo capitais para investir em projetos produtivos e em infra-estrutura? Está ajudando a reconstruir as cadeias produtivas destroçadas em mais de 10 anos de domínio neoliberal? Está colaborando no rebaixamento das tarifas dos preços indexados ao dólar?

É verdade que existem alguns setores dispostos a seguir esse caminho. Mas o mercado como um todo está retornando é com seus capitais voláteis, de curto prazo, com vencimentos entre outubro e dezembro de 2003. Mais de 80% dos “investimentos” neste início de governo Lula o foram nas bolsas. Com a mesma rapidez que entraram, aproveitando os maiores juros ofertados em todo o mundo, podem sair para “realizar lucros”.

Irão pressionar o câmbio, que irá pressionar a inflação, que irá pressionar o governo a elevar novamente os juros, que irá arrochar ainda mais a vida dos brasileiros e causar mais recessão e desemprego. A euforia do mercado se transformará em frustração, culpando o governo por não ter mecanismos capazes de alimentar sua fome insaciável de lucros e, ao mesmo tempo, evitar a crise.

Seria conveniente que o governo Lula pensasse na síndrome do escorpião antes de colocar o mercado definitivamente às costas e entrar no rio revolto da economia brasileira.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político

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