A síndrome do colonizado

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | A síndrome do colonizado, n. 379, 11 jan. 2004.

 

 

As notícias recentes sobre o desempenho da indústria (sobe-desce), assim como da renda (achatada) e do desemprego (persistente), em contraste com o otimismo dos mercados financeiros (“Risco Brasil” em queda e Títulos da Dívida – C-Bonds e Bolsas em alta), continuam atrapalhando as previsões, não só sobre o crescimento de 2004, mas também sobre as perspectivas de um crescimento sustentado de maior fôlego.

Há uma parcela considerável de economistas e empresários que sustenta existirem dados favoráveis na conjuntura econômica, apontando para um processo de recuperação continuada da indústria e da economia em geral. Porém, mais da metade dos empresários ouvidos em diferentes pesquisas simplesmente afirma que vai manter seu atual ritmo de investimentos. Isto é, vai permanecer com os freios apertados. Apenas cerca de um quarto deles diz que vai aumentar os investimentos, enquanto o quarto restante diz que vai reduzi-los.

Mal vistas as coisas, temos uma expectativa de soma zero em termos de investimentos, o que contrasta tanto com o otimismo dos mercados financeiros, quanto com a suposição sobre dados econômicos favoráveis. E, se tomarmos em consideração os empresários que pretendem aumentar seus investimentos, a proporção estimada entre os investimentos e a geração de empregos é de 30% para 15%. Ou seja, mesmo os setores que vão incrementar a produção terão pouco peso no aumento dos empregos.

Como gato escaldado tem medo de água fria, a cautela manda examinar com mais atenção tanto o otimismo dos mercados financeiros, quanto os dados contraditórios dos mercados produtores, principalmente da indústria. E introduzir nesse exame o instrumento da política. Isto é, se as tendências dos mercados apontam para investimentos de soma zero e manutenção das altas taxas de desemprego, o que significará, inevitavelmente, a continuidade do achatamento da renda, será indispensável que a política intervenha em socorro da própria economia, descobrindo os caminhos pelos quais é possível fazer crescerem os investimentos, a produção, os empregos e a renda.

O pior que pode acontecer ao governo será contentar-se com o otimismo virtual e ser apanhado de surpresa com resultados pífios ou negativos nessas quatro áreas que, deixadas por conta dos mercados, nem sempre andam juntas. Não se trata de desdenhar a economia, mas salvá-la de suas próprias contradições e dos perigos sociais e políticos que podem gerar. Afinal, os mercados financeiros podem continuar alegres e faceiros, mas a persistência do desemprego e do achatamento da renda causará, inevitavelmente, transtornos sociais e políticos.

 

Wladimir Pomar é analista político e escritor.

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