A questão neoliberal (3)

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | A questão neoliberal (3), n. 330, 25 jan. 2003.

 

 

Não se pode desconhecer que a corrente neoliberal deixou o Brasil minguado de recursos para investimentos estatais e, ainda por cima, plantou armadilhas econômicas e financeiras cujo manuseio descuidado pode gerar crises graves. Mas também não se pode esquecer que tal situação só será revertida com o aumento da produção, com o crescimento econômico. Qualquer outro caminho nos conduzirá a um buraco ainda maior do que aquele com o qual nos defrontamos.

Por outro lado, o crescimento está limitado tanto pelas contingências externas, quanto pelo fato de o mercado interno brasileiro estar contraído pela queda do poder aquisitivo da população e pelo aumento do desemprego, da pobreza e da miséria. Portanto, dar sustentabilidade ao aumento da produção, criando um modelo de alta produtividade e competitividade externa e, ao mesmo tempo, gerador de empregos e redistribuidor de renda, é um daqueles nós que só se desatam sendo cortados.

Para isso, talvez deva-se levar em conta a existência de três sistemas produtivos no Brasil: o sistema das grandes corporações empresariais, o sistema intermediário das médias e pequenas empresas e o sistema micro-empresarial formal e informal. Embora relativamente articulados, eles possuem características próprias e conflitam entre si. O sistema corporativo tinha todos os privilégios, o sistema intermediário vivia jogado às feras da competitividade selvagem e o sistema micro-empresarial apenas resistia ao processo destrutivo, sendo obrigado cada vez mais a entrar na clandestinidade física, fiscal e tributária para sobreviver.

É possível crescer dando ao sistema corporativo novas funções: conquista dos mercados externos, contratação de fornecedores internos, com transferência de tecnologias, e contribuições voluntárias para o combate à fome. O sistema intermediário, em grande parte terceirizado pelo sistema corporativo, também poderia ser estimulado a disputar o mercado internacional. Aliás, isso não se diferencia muito do que já vem sendo tentado. Esses sistemas já apresentam sinais de crescimento, podendo dar a impressão de que vamos sair do aperto.

O problema consiste em que tal crescimento não propiciará aumento substancial nos empregos, nem melhoria na distribuição de renda e no bem-estar da população carente. O sistema corporativo exclui força de trabalho. O sistema intermediário, embora tenha alguma capacidade de absorção da mão-de-obra, tende a tornar-se excludente à medida que aumenta sua produtividade e competitividade. Assim, podemos ter um crescimento com o agravamento da situação social.

Para que o crescimento propiciado pela conquista de mercados internacionais seja acompanhado de geração de empregos, distribuição de renda, elevação do padrão de vida da maior parte da população e criação de um mercado interno pujante, é fundamental desatar os nós que impedem o sistema micro-empresarial formal e informal de desenvolver-se e ganhar amplitude e massividade.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

Você pode gostar...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *