A questão neoliberal (2)

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | A questão neoliberal (2), n. 329, 18 jan. 2003.

 

 

O sistema ideológico neoliberal está aí para dizer que a guerra não terminou. Embora suas forças políticas continuem relativamente desorganizadas e procurando reunificar-se, seus representantes categorizados encerraram a fictícia lua-de-mel com o governo Lula e abriram baterias contra ele. Basta folhear as revistas semanais e os órgãos da grande imprensa para verificar que eles não dão a mão à palmatória.

Continuam afirmando que FHC entregou o governo e o Brasil em ordem para a retomada do crescimento e, socialmente, em melhores condições que antes. Procuram convencer que a coisa pública foi gerida com seriedade e moralidade. Reiteram que sua gestão orçamentária foi correta, sem gastar mais do que permitiam as receitas públicas. E mostram contentamento com a suposição de que o governo Lula teria assumido suas teses sobre a condução da economia e das finanças e se comprometido a dar continuidade à “responsabilidade fiscal” e à “estabilidade econômica”, herdadas de FHC e Malan, e realizar as reformas não concluídas por ambos.

Como o médico que comunica aos parentes de seu paciente que este “morreu em boas condições médicas”, os ideólogos neoliberais consideram que a estagnação da renda e sua má distribuição, a continuidade dos problemas crônicos nas contas públicas, as baixas taxas de investimento, a permanência de um Estado que gasta muito e mal, e beneficia a poucos, os índices medíocres de crescimento econômico e as maiores taxas de desemprego da história brasileira, só para ficar em alguns exemplos do quadro em que se encontra o Brasil, nada têm a ver com a “responsabilidade fiscal” e a “estabilidade econômica” praticadas por FHC e Malan.

Desde quando a alienação irresponsável da coisa pública, os privilégios dados ao sistema financeiro, as facilidades permitidas às grandes corporações empresariais e o endividamento externo desregrado podem ser catalogados como seriedade e moralidade? Se o PT e Lula não esclarecerem essas falsidades, correm o risco de ver o povão não diferenciar o seu projeto do projeto neoliberal, de deixá-lo ser envolvido novamente pela ideologia e política neoliberais e de assistirem a seus projetos sociais serem engolidos pela lógica dos gastos submetidos estritamente às receitas.

Será preciso mostrar, com determinação, que os métodos da equipe Lula para alcançar os necessários e imperiosos controle inflacionário e estabilidade econômica diferem radicalmente daqueles praticados pela equipe FHC. Ao invés de recessão, crescimento econômico com distribuição de renda. E, ao invés de gestão de gastos minguantes em virtude de receitas apertadas pelo pagamento de dívidas, crescimento da receita baseada no aumento da produção e da demanda, para financiar gastos crescentes em investimentos produtivos e necessidades sociais. O nó que existe para realizar essa inversão terá que ser cortado, ou o Brasil morrerá asfixiado.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político

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