A questão neoliberal (1)

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | A questão neoliberal (1), n. 328, 11 jan. 2003.

 

 

Esta não é uma questão resolvida, apesar da derrota eleitoral da corrente neoliberal de FHC e equipe e da troca de governo. Ela só poderá ser resolvida quando a hegemonia neoliberal na economia, na sociedade e na política for suplantada, tendo como expressão concreta a retomada do crescimento econômico com geração de emprego e melhoria de distribuição de renda. E só será possível realizar essa combinação se houver clareza na diferenciação entre as políticas neoliberais e as democrático e populares.

Não devemos nos esquecer que a corrente ideológica e política neoliberal conquistou a hegemonia, no final dos anos 1980, no vácuo do declínio do modelo militar e da transição da ditadura para a democracia política. Ela operou com as contradições do estatismo burocrático e da estagnação econômica, e com as vacilações socialistas e populares sobre o caminho a seguir diante do quadro de globalização capitalista. E convenceu largos segmentos da população, e também da esquerda, de que seu projeto de privatizações, desregulamentações financeiras e trabalhistas, redução do Estado, reestruturação empresarial etc. era o mais adequado para tirar o Brasil da crise.

A luta contra a inflação e pela estabilidade monetária foi a isca que atraiu milhões de brasileiros para concordar com aquele projeto. Até mesmo parte da esquerda se convenceu de que havia sido de sua responsabilidade, no passado, a selvageria inflacionária e o desgoverno fiscal. A pretexto da luta contra esses malefícios, o neoliberalismo conseguiu realizar um dos mais profundos rearranjos do pacto de dominação da economia brasileira, favorecendo as grandes corporações estrangeiras e nativas, especialmente seus ramos financeiros, em detrimento do médio e pequeno empresariado industrial e agrícola.

Durante mais de 10 anos de hegemonia neoliberal, agravaram-se a estagnação da renda per capita e a secular má distribuição de renda; intensificaram-se os crônicos problemas nas contas públicas e as baixas taxas de investimento público e privado. Aprofundou-se o paradoxo de um Estado que muito gasta, e mal, e a poucos beneficia. As taxas de crescimento da economia foram medíocres, sendo acompanhadas de falências de setores produtivos, desemprego massivo e crescente dependência financeira e tecnológica externa.

Tão perverso quanto tudo isso é o fato de que o decantado controle da inflação e a estabilidade monetária não só não foram alcançados, como o governo Lula assumiu sob uma crescente pressão inflacionária. Todos esses resultados perversos, para ficar apenas em alguns, são marcas fundamentais da hegemonia neoliberal nos últimos oito anos. É possível construir um novo modelo econômico e social sem acertar as contas com elas?

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político

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