A questão da ruptura

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | A questão da ruptura, n. 542, s/d.

 

 

O conceito de ruptura é associado, indevidamente, à idéia de eliminação de todo o velho, e de qualquer continuidade. Ruptura seria a criação de algo totalmente novo. No entanto, na prática histórica, todas as rupturas, por mais profundas que tenham sido, eliminaram apenas os obstáculos principais que impediam a evolução. O que muda, no processo de ruptura, é a tendência evolutiva.

A ruptura é outro ponto de controvérsias entre os socialistas. Muitos acham que, por estar muitas vezes ligada à violência, seria da mesma natureza desta. Porém, há inúmeros exemplos de rupturas que ocorreram sem estarem associadas à violência. O fim do escravismo no Brasil, embora tardio e incompleto, não deixou de ser uma ruptura. E o grau de violência que o cercou foi insignificante, principalmente se comparado à ruptura de libertação dos escravos nos Estados Unidos.

O conceito de ruptura também é associado, indevidamente, à idéia de eliminação de todo o velho, e de qualquer continuidade. Ruptura seria a criação de algo totalmente novo. No entanto, na prática histórica, todas as rupturas, por mais profundas que tenham sido, eliminaram apenas os obstáculos principais que impediam a evolução. O que muda, no processo de ruptura, é a tendência evolutiva.

No escravismo brasileiro, o obstáculo principal era a propriedade privada sobre o trabalhador. Ao libertar os escravos, para constituir um mercado de trabalho livre, a monarquia mudou a tendência evolutiva. Criou as condições básicas para o desenvolvimento capitalista no Brasil. E, sem outra classe social que pudesse sustentá-la, ruiu.

Por outro lado, sem classes sociais fortes para impor a reforma agrária e o trabalho assalariado em todo o país, produziu-se uma ruptura incompleta. A classe dos latifundiários manteve seu domínio sobre o solo, e sobre grande parte da força de trabalho, com a utilização de formas de trabalho aparentadas à servidão. E continuou influenciando, por longo tempo, a república que substituiu a monarquia.

Foram necessárias inúmeras outras pequenas rupturas. Primeiro, para transformar os latifundiários, de classe dominante autônoma, em setor da classe capitalista. Depois, para libertar do latifúndio seus agregados, permitindo que vendessem sua força de trabalho no mercado. E, ainda depois, para conquistar o voto secreto, o voto para as mulheres e analfabetos, o direito dos socialistas e comunistas de participarem da política e dos governos, e para superar outras reminiscências do escravismo e da formação social mista que o substituiu após a ruptura da libertação dos escravos.

Assim, grandes e pequenas rupturas e avanços, assim como continuidades e retrocessos, fazem parte da vida. As descobertas científicas, as inovações tecnológicas, as reorganizações produtivas, os novos hábitos, as novas formas literárias, as novas formas de expressão social e política, todas são frutos de rupturas. Umas dolorosas, outras menos. De qualquer modo, independentemente da vontade individual, elas se acumulam ao longo do tempo e exigem, a partir de determinando momento histórico, rupturas mais profundas para continuarem avançando.

Então, pensar numa vida social sem rupturas significa ficar parado no tempo. Pior, significa ficar despreparado para elas, mesmo que sejam realizadas pacificamente.

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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