A pressão dos mercados

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | A pressão dos mercados, n. 304, 13 jul. 2002.

 

 

Um alto funcionário do Banco Internacional de Compensações (BIS), o banco central dos bancos centrais, com sede na Suíça, declarou que os mercados (sempre essas figuras etéreas, que determinam a vida e a morte das pessoas, embora seus representantes sequer aceitem que eles sejam julgados ou punidos pelos crimes que cometem) gostariam de obter dos candidatos à Presidência do Brasil compromissos com a manutenção da atual política monetária e de câmbio, com a redução da inflação, com o pagamento das dívidas interna e externa, com a disciplina fiscal e com a manutenção da relação entre dívida pública e PIB.

O ministro Malan, um outro categorizado representante dos mercados, à frente das finanças do Brasil, admitiu a possibilidade de um acordo de transição com o FMI, em torno daqueles compromissos, envolvendo os principais candidatos. Em outras palavras, os mercados e seus representantes exigem que os candidatos à Presidência não mudem nada do que aí está. Mais, eles querem que os candidatos se comprometam com uma política que já está tendo como resultado uma grave crise financeira, desemprego e inflação em alta, fuga de capitais, endividamento aumentando e um crescente cheiro de caos.

Nestes meses recentes, essa política levou o Real a desvalorizar-se em mais de 20% em relação ao dólar, embora este esteja se desvalorizando em relação ao Euro. Os desempregados somam mais de 11 milhões de brasileiros. Os preços dos serviços em concessão do governo apontam um crescimento de mais de 230%, enquanto os demais preços elevaram-se cerca de 120%, todos continuando a pressionar o bolso daqueles cujos salários não foram reajustados ou diminuíram, embora o governo continue dizendo que a inflação está sob controle.

A queda do poder aquisitivo da população levou a uma redução acentuada das vendas em 2002. Esta rebateu na produção industrial de maio, que caiu 5,1% em relação a abril. As possibilidades de paralisação de vários setores da economia são reais e angustiantes. A lista de problemas é enorme. Mas o governo e os mercados querem, assim mesmo, a solidariedade e o compromisso dos candidatos com essa política do caos, ao mesmo tempo que acusam de “criar o caos” aos que não aceitam tal tipo de acordo.

Reconhecendo implicitamente a gravidade da situação, o candidato oficial tem prometido que, se eleito, a “vaca não irá para o brejo”. Sabe as conseqüências das políticas que o governo FHC implantou sob exigência dos mercados. Portanto, ele e FHC que assumam a responsabilidade. Quanto à oposição, como bem disse Lula, não tem que assinar qualquer tipo de acordo com os mercados. Seu compromisso é com a mudança. Os mercados que se adaptem a ela.

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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