A prática da violência

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | A prática da violência, n. 541, s/d.

 

 

Mesmo diante da previsibilidade da violência, os socialistas são obrigados a acompanhar as grandes massas na sua experiência reformista e pacífica, embora devam preparar-se ideológica e politicamente para quando, e se, a situação de violência se apresentar.

Na discussão sobre o socialismo, o conceito de ruptura surge sempre com força, e associado à violência. Apesar disso, se queremos tratar seriamente da questão, com base em pressupostos teóricos não caricatos, é preciso separar os conceitos de violência e ruptura, e examiná-los tanto separadamente, quanto em sua ação integrada.

A violência, infelizmente, tem acompanhado a humanidade desde seu nascedouro, e não há previsibilidade de que seja eliminada a curto prazo. Isso, porém, não autoriza os socialistas a pregarem a violência, em especial como sendo a qualidade preliminar necessária a qualquer ruptura, como se tornou comum, e quase um dogma, nos séculos 19 e 20.

É verdade que ocorreram várias experiências históricas, burguesas, democrático-populares, nacionalistas e socialistas, em que era previsível que a ruptura se daria de forma violenta. A tradição da violência dominante apontava inevitavelmente para isso. Não levá-la em consideração seria um desastre. Só quem não conheceu a barbárie dos monarquismos feudais francês e alemão, do escravismo norte-americano, do tsarismo russo, do semi-feudalismo chinês e do colonialismo europeu na África e na Ásia pode supor que seriam possíveis rupturas pacíficas nesses países e regiões. Mesmo no caso da Índia, em que formalmente predominou o pacifismo de Gandhi, a ruptura foi envolta em tão incontáveis violências e tragédias, que é difícil afirmar que tenha sido realmente pacífica.

A própria experiência histórica desse período mostrou, porém, que as grandes massas populares lutaram pelas reformas e rupturas pacificamente, até os limites de suas forças. Só ingressaram na violência quando foram obrigadas a ela pela violência das classes dominantes. Aliás, como previram teoricamente Marx, Lênin e outros socialistas do período. Foi assim que surgiram as situações revolucionárias armadas naqueles países, superando todos os desejos de solução pacífica.

No entanto, considerar a previsibilidade da violência não é o mesmo que praticá-la como tática de luta, substituindo os combates reformistas e pacíficos das grandes massas. Todos os que cometeram esse erro fracassaram. Assim, mesmo diante daquela previsibilidade, os socialistas são obrigados a acompanhar as grandes massas na sua experiência reformista e pacífica, embora devam preparar-se ideológica e politicamente para quando, e se, a situação de violência se apresentar.

Por outro lado, mesmo que não houvesse previsibilidade de que a violência dominante levaria as massas populares a seu limite, e à violência oposta, seria imperdoável que os socialistas desconsiderassem tal hipótese, e corressem o risco de serem atropelados pelos acontecimentos. Simplesmente porque, da mesma forma que é um crasso erro voluntarista impor a violência como pressuposto, também é um erro voluntarista da mesma gravidade supor que ela pode ser evitada pela nossa vontade.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

 

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