A porta do inferno

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | A porta do inferno, n. 238, s/d.

 

 

A crise argentina levou o professor Cristovam Buarque, em artigo em O Globo, a tirar dela lições para o Brasil. Lição 1: estabilidade monetária, sem estratégia do que fazer depois, como erradicar a pobreza, melhorar a qualidade de vida e fortalecer a infra-estrutura e a soberania nacional, não basta. Lições 2 e 3: estabilidade monetária não se mantém com instabilidade social. Assim, para Buarque, também não basta saber o que está errado, desejar mudar e reclamar da situação. É preciso levar em conta os compromissos que o país não tem poder de descumprir, pois, sem credibilidade junto aos que manejam a gasolina financeira, o país corre o risco de cair como um avião sem combustível.

Então, lição 4: não haverá saída se, no Brasil, tivermos que enfrentar uma crise parecida à da Argentina. Teremos que fazer uma lista de compromissos comuns no interesse geral do país, procurando uma estabilidade permanente compatível com crescimento e solução dos problemas sociais. O que só será possível, ainda segundo Buarque, se levarmos em conta a realidade financeira e buscarmos alguém, com credibilidade no cenário das finanças locais e internacionais, capaz de vender ilusões por algum tempo, como é o caso de Cavallo, na Argentina. Em outras palavras, Buarque não apenas sugere que a esquerda chegue a um compromisso com FHC e o sistema financeiro, como pensa que fora, de Cavallo (e Malan, por supuesto), não há saída para a presente crise argentina e futura crise brasileira.

Sua sugestão só tem um defeito: ignora que não faltou uma estratégia do que fazer após a estabilização monetária. Ao contrário. Junto com a estabilidade monetária foi levada a cabo, com persistência, uma política cujas metas desembocariam, prática e inevitavelmente, no aprofundamento da pobreza, na piora da qualidade de vida, na destruição da base produtiva brasileira e na liquidação de nossa soberania. Aliás, teve muita gente, como a professora Maria da Conceição Tavares, a apontar que esse seria o resultado das políticas de Collor e FHC.

Tal estratégia tinha como referência justamente a realidade financeira e os compromissos com os que a manejavam, tornando-a incompatível com o crescimento e a solução dos problemas sociais. É uma pena, pois, que diante da crise o professor Cristovam Buarque nos apresente, como saída, a mesma porta do inferno por onde, há pelo menos dez anos, os povos da América Latina estão sendo forçados a entrar. Sempre preocupado com a pobreza, e diante da tragédia argentina e, proximamente, da brasileira, Buarque pelo menos poderia evitar sugerir a nossa entrada por uma porta que, ele bem sabe, depois de ultrapassada, não há como voltar.

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