A polarização eleitoral

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | A polarização eleitoral; 08 abr. 1998.

 

 

FHC trabalha por um cenário eleitoral polarizado. Acredita que isto favorecerá a sua reeleição. Lula, por seu turno, procura evitar a polarização, acreditando-a, como FHC, prejudicial à candidatura popular. Assim, do jeito como está posta, a polarização parece depender da vontade dos candidatos.

Ao trabalhar por ela, FHC nem se dá conta que desmente sua teoria sobre as eleições de 1994. Estas esmagariam qualquer resistência ao projeto de uma nova modernização conservadora, permitindo às elites revezar-se no poder por um longo período, sem ameaças sérias ao seu domínio, como em 1989. Esta teoria foi a base de sua opção de alianças pela direita.

Ora, se isto é verdade, como a ameaça Lula pode ressurgir num quadro de movimentos sociais quase paralisados? E em que as representações políticas dos trabalhadores e oprimidos encontram-se, no mais das vezes, perplexas? Ou FHC acredita imperialmente que pode impor uma polarização em que o lado popular já entrará derrotado?

O problema parece estar na avaliação dos resultados da modernização conservadora, iniciada por Collor e continuada por FHC.  Este crê que tal projeto vai de vento em popa e despreza as dificuldades econômicas, sociais e políticas em que já se debate.

Porém, apesar da bajulação da imprensa, a inserção subordinada do país à globalização agravou todas as contradições estruturais da sociedade brasileira e intensifica o descontentamento com imensa rapidez. As pessoas não sabem bem por quê, ainda acreditam no Real, mas não estão satisfeitas com a situação de seu bolso e de sua barriga.

Esse descontentamento ainda não explodiu, mas está empurrando o país, novamente, para a busca de um projeto alternativo, ou oposto, ao das elites representadas por FHC. Então, é natural que a polarização ressurja como um dado objetivo da realidade.

Os que acreditaram num longo período conservador pós-FHC, à esquerda e à direita, se vêem assim obrigados a levar em conta esse novo dado. O problema consiste em que, ao contrário de 1989, em que pelo menos havia um ascenso político e o descontentamento era explicíto e de bom som, hoje o descontentamento é surdo.

Como a cobra grande, ele é subterrâneo, corrói o terreno na surdina até fazê-lo desabar de uma só vez nas águas do rio. FHC talvez descubra tarde demais essas contradições. E Lula vai ter que descobrir como fazê-las transformar-se num caudal social e político irresistível.

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