A pauta do eleitorado

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | A pauta do eleitorado, n. 318, 19 out. 2002.

 

 

Mal acabara o primeiro turno e os editoriais da grande imprensa determinavam a pauta que queriam ver cumprida por Lula e Serra: mais debates. Com a interpretação de que era esse o recado das urnas, exigiam saber o que é realmente possível executar, em termos de crescimento, geração de empregos, segurança e outros itens. Com debates, cada candidato poderia esclarecer suas propostas e o eleitorado poderia, então, evitar planos negativos para a economia e a sociedade.

Dessa forma, com matreirice, a grande imprensa omitiu que os planos negativos para a economia e a sociedade brasileiras foram justamente os de FHC. E inverteu o verdadeiro recado das urnas. Estas, com certeza, explicitaram claramente que estão na oposição e querem mudanças. Com mais do dobro da votação em Lula, tiraram da pauta as propostas do candidato do governo. A maioria do eleitorado já as conhece há oito anos, sabe os seus resultados e está contra. Então, não adianta o candidato oficial transformar os cinco dedos da mão de FHC em dez dedos ou mais. Ou prometer que no dia seguinte à eleição o câmbio estará estabilizado. Isto é, no mínimo, confissão de jogo armado.

O que o eleitorado quer debater são as mudanças que Lula se compromete a realizar. O candidato popular tem que realizar mais debates é com o povo, nas comunidades, nos comícios, nas ruas e praças. Como vai criar mais empregos? Mantendo o modelo de exclusividade para os setores modernos e de alta produtividade? Ou redirecionando a produção desses setores para o mercado externo e combinando isso com uma vasta produção agrícola familiar e de micro e pequenas empresas industriais e de serviço, capazes de atender e fortalecer o mercado interno?

Isto é algo que os economistas liberais, como Serra, não entendem. Nem sabem como fazer. Mas o povão, que resiste e sobrevive na selva em que foi transformada a economia brasileira, sabe e faz todo dia. É pois com esse povão que Lula precisa debater agora. Por que Serra não faz o mesmo? Por que não organiza debates com o povão nas ruas e praças para demonstrar que a economia vai bem, que a saúde está ótima, que os remédios, incluindo os genéricos, estão baratos “de morrer”, e assim por diante?

Talvez fosse bem mais proveitoso para ele e para a nossa democracia que Serra procurasse realizar esse debate, ao invés de fazer terrorismo e tentar disseminar o medo, imitando Collor e companhia. Não correria o perigo de dar tiros no próprio pé, não abriria flancos para a ação dos especuladores financeiros, e poderia chegar ao debate do dia 25, com Lula, pelo menos podendo afirmar que contribuiu para o fortalecimento da democracia brasileira. Essa é a pauta do eleitorado.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político

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