A natureza do governo

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | A natureza do governo; 15 abr. 1998.

 

 

Edward Amadeo, o novo ministro do trabalho, considera-se sincero e franco. Talvez porque, como diz, não seja político, nem entenda a lógica das decisões políticas.

Amadeo mudou suas opiniões em 1995, ao constatar que os trabalhadores educados e os informais estariam ganhando  mais, a renda estaria crescendo e  as empresas poderiam planejar seu futuro. Mergulhou num sonho que desconhece a quebra de empresas, a queda da renda da população e o  crescente desemprego. Para ele, isto seria apenas  “um  pedacinho no imposto  da dívida pública,  outro no desemprego, outro na alta de juros”,  que pagamos para manter a estabilização.

Por isso, considera que deveríamos fazer como na Argentina,  onde  ninguém discutiria política macroeconômica, coisa para técnicos. Deveríamos compreender que o Brasil vive num mundo globalizado, do qual é dependente, e nada se pode fazer contra o desemprego estrutural, porque  ninguém pode ser contra a modernização industrial. Além disso, não haveria crise de emprego, já que há trabalho e renda para todos, como provam os ambulantes e biscateiros.

O desemprego deveria ser visto em sua dimensão humana, não como o drama da pobreza, diante da qual Amadeo exercita uma compaixão cotidiana. Ficará satisfeito se mudar a legislação trabalhista, permitindo aos patrões oferecer, a trabalhadores em vias de demissão, a oportunidade de um trabalho e uma renda equivalentes aos de um biscateiro, melhorando o reemprego.

Evidentemente, a culpa seria  do PT, que nunca teria proposto qualquer programa sistemático de crescimento econômico, a única coisa que gera emprego. Podemos, então, concluir que a compaixão, ante a pobreza, e a  disseminação do biscate, ante o desemprego, sejam a única política do governo.

Nada como Amadeo, sincero  e franco, que não entende a lógica das decisões políticas, para esclarecer a natureza do governo FHC e de suas reformas.  E nos alertar para as conseqüências  disso tudo nos cenários políticos.

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