A melhor defesa

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | A melhor defesa, n. 454, 25 jun. 2005.

 

 

Na crise envolvendo o governo Lula e o PT podemos redescobrir velhos aspectos. O primeiro deles é o de que, no sistema capitalista, com um histórico de relações espúrias entre o empresariado e o Estado, é pura ingenuidade supor que o PT e um governo dirigido por ele estariam imunes à corrupção e seriam capazes de liquidá-la pelo exemplo.

Tal ingenuidade levou o PT a não se preparar para a capitulação de dirigentes aos apelos da corrupção. Colocar a ética acima da política e da ideologia, e pensar que apelos éticos evitariam a contaminação corruptora, foi um engano de conseqüências dramáticas. Sinais desse engano já vinham ocorrendo em governos dirigidos pelo PT, mas não foram suficientes para o partido traçar políticas claras de enfrentamento.

Isso permitiu aos adversários do PT traçar uma estratégia que visa derrotá-lo não no campo político explícito, mas no campo da degeneração da política. Há indícios de que, há muito, os dirigentes oposicionistas reúnem informações sobre casos de corrupção no PT e no governo, com o propósito de soltar suas bombas na segunda metade de 2006, paralisando o governo Lula no processo da disputa eleitoral.

Nesse sentido, a ação solitária de outsiders, denunciando a corrupção do PTB nos Correios, teve desdobramentos não apenas sobre o PT. A oposição está se lamentando de o assunto ter vindo à baila prematuramente, dando ao PT e ao governo a oportunidade de tomarem medidas sérias de saneamento, recuperando uma de suas marcas mais importantes aos olhos do povo brasileiro.

Agora, a questão reside em saber até onde o PT e o governo Lula estão dispostos a investigar a fundo as suspeitas e acusações que pesam sobre alguns de seus dirigentes. O afastamento do ministro-chefe da Casa Civil, mesmo presumindo sua inocência até prova em contrário, deve ser apenas o primeiro passo.

Mas o PT e o governo não podem transformar os acusados em bodes expiatórios, sem solucionar as questões em jogo. Se os trabalhadores e o povo brasileiro não sentirem uma firme decisão de ir até o fim nas investigações, nas medidas legais decorrentes e nas mudanças nas políticas que facilitam casos idênticos, o futuro do PT e do governo Lula correrá sério perigo. A melhor defesa ainda é cortar na própria carne e mudar a tempo.

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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