A medida dos fatos

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | A medida dos fatos, n. 244, s/d.

 

 

Na tentativa de justificar a complacência diante do crime de violação do painel do Senado, ACM invocou razões de Estado. Ao evitar medidas, evitaria um escândalo e preservaria a imagem da instituição. Como se sabe, não conseguiu nem um, nem a outra, vendo-se ainda constrangido a sentar-se diante da comissão de ética do Senado e submeter-se a uma inquirição pública, assistida por milhões de pessoas, pela TV e rádio.

Apesar de sua experiência política, ACM não mediu a grandeza das mudanças que ocorrem na sociedade brasileira. Acostumado à impunidade dos oligarcas, supôs, arrogantemente, que poderia blasonar o pseudo conhecimento do voto de outros senadores e utilizar tal conhecimento como instrumento de cizânia e chantagem, se é que este foi o único móvel da violação.

Essa falta de medida do que acontece no Brasil talvez leve a base governista a cometer o mesmo erro de avaliação, ao tentar impedir a cassação de ACM e Arruda e a instalação da CPI da Corrupção. ACM, Jader e FHC parecem haver chegado a acordo nesse sentido. ACM por motivos óbvios. Jader porque pode ser levado ladeira abaixo por questão de isonomia. E FHC porque as mesmas razões de Estado que levaram ACM e Arruda a calar-se quanto ao conhecimento da lista pelo presidente podem levá-los a confissões inesperadas, caso sejam imolados.

Assim, apesar de toda a pressão da opinião pública, a maioria governista bem pode evitar as cassações e a CPI, na suposição de que a memória popular é curta e em menos de um ano não lembrará mais nada. Esquece que foi essa mesma sensação de impunidade que levou ACM e Arruda ao banco dos réus. Afinal, quem, em sã consciência, vislumbraria a cena do oligarca baiano, mesmo com seus rompantes autoritários, mal conseguindo disfarçar o constrangimento e a humilhação a que o estavam obrigando?

A verdadeira medida desses fatos reside em que os de cima já não podem mandar, prevaricar, assassinar ou roubar como antes, impunemente. Da mesma forma que as razões de Estado de ACM e Arruda geraram uma crise que não
supunham possível, a não cassação de ambos também pode levar, mais adiante, a convulsões políticas maiores.

Porém, se apesar de todos os acordos para fabricar uma imensa pizza, o grupo no poder for obrigado a aceitar a imolação de dois de seus principais quadros, isto será um sinal ainda mais evidente de que sua falta de legitimidade e sua impotência chegaram a um ponto crítico.

Você pode gostar...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *