A marca do primeiro mundo

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | A marca do primeiro mundo, n. 198, 13 jun. 2000.

 

 

Nosso país finalmente cumpriu a promessa de Collor, completada por FHC: ingressou no primeiro mundo capitalista, com a marca indelével do assassinato de uma jovem inocente em pleno dia dos namorados. Ombreamos agora com os países desenvolvidos em cenas que supúnhamos ver apenas como ficção ou nos noticiários internacionais.

O seqüestro dos passageiros de um ônibus no Rio de Janeiro imita acontecimentos comuns nas cidades das grandes potências. Coloca-nos diante tanto da brutalidade dos que foram empurrados para a marginalidade pela exclusão social, quanto do desprezo com que as forças repressivas encaram as vidas inocentes envolvidas na guerra em que se transformou o cotidiano dessas cidades.

A polícia aqui sempre atirou primeiro para perguntar depois. Procedimento anterior à ditadura militar, transformou-se em padrão durante os vinte anos de chumbo. Desde então, apesar da fachada democrática, a violência policial só se acirrou. É a suposta resposta ao rastro de violência social, que acompanha a pobreza, a miséria e a intensa degradação dos antigos deserdados, dos trabalhadores e das camadas inferiores e intermediárias da classe média, em decorrência das políticas neoliberais.

Como antes, os problemas sociais são tratados como casos de polícia. E estes são tratados como questões de competência, firmeza e outros atributos incapazes de existirem se a filosofia que preside toda a ação governamental nada tem a ver com a solução dos problemas sociais. Mesmo no primeiro mundo capitalista, onde os problemas sociais ainda não parecem tão graves, e o nível de sofisticação é mais elevado, quase sempre eles se misturam aos casos de polícia, embora existam psiquiatras, psicólogos e outros profissionais treinados para “negociar” com assaltantes e seqüestradores que colocam inocentes em situações de risco.

Se lá, com tudo isso, os imperativos da ordem e da honra policiais se sobrepõem às prioridades sociais e humanas e levam à imolação de inocentes, imagine-se aqui. No Rio, foram tais imperativos que levaram as viaturas policiais a bloquear um ônibus para prender um marginal, sem a precaução que a situação exigia. E foram ainda aqueles imperativos que levaram a polícia a realizar a desastrada operação em que a jovem morreu, demonstrando que apenas agüentou “negociar” quatro horas porque não teria como justificar o banho de sangue de um ataque ao interior do veículo.

Infelizmente, foi a primeira operação do tipo, mas certamente não será a última, porque direitos sociais e humanos são apenas palavras vazias diante da ação neoliberal. Por isso, as lamentações do presidente não passam de choro de carpideira profissional, sem qualquer sentimento real pelas vítimas.

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