A lei de ferro do mercado

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | A lei de ferro do mercado, n. 302, 29 jun. 2002.

 

 

O vice-presidente Marco Maciel, assim como inúmeros membros do governo e comentaristas econômicos de proa, consideram surpreendente a reação do mercado. Para eles, não deveria haver qualquer razão para que a taxa de risco do Brasil tenha superado a da Nigéria. Tratar-se-ia, segundo Maciel, de mera especulação. Ou, segundo Míriam Leitão, da profecia auto-realizável em ação, o que estaria no terreno da psicologia e não da economia.

O que mais impressiona nos adoradores do deus Mercado é que eles parecem não entender nada de mercado. Segundo eles, além do somar as más notícias, o mercado deveria descontar as boas, não as deixando passar despercebidas. Isto evitaria que ficasse extremamente nervoso, sem saber qual é o fundo do poço, no dizer de um analista do sistema. Essa personificação e racionalização invertida do mercado, tão comum nos dias atuais, é o exemplo mais flagrante da perplexidade geral.

O mega-investidor Soros, no entanto, já tinha dito há muito ter plena consciência de que a atual ditadura do mercado iria levar o mundo ao desastre. Mas, acrescentou, como investidor tinha que ganhar dinheiro. Este é o segredo do mercado, ou da somatória indefinida dos donos de capital. Tenham ou não consciência do buraco que estão abrindo, precisam ganhar dinheiro. Então, mesmo que não tenha havido piora alguma em fundamento algum do Brasil, como crê a maioria dos analistas econômicos brasileiros, esse poderia ser justamente um dos motivos para que os membros ativos do mercado tenham decidido depenar o país.

No entanto, o mais crível é que os indicadores da economia brasileira, nos meses mais recentes, sob o comando da equipe FHC, estão apontando no rumo da Argentina. Em tais condições, o mercado não pretende esperar que o país chegue a uma situação em que apenas sobrarão os ossos. Está realizando lucros, buscando mercados menos instáveis e praticando a única coisa que é sua razão de ser: ganhar dinheiro. Em sua irracionalidade louca pode-se encontrar a racionalidade pura.

A irracionalidade assassina sobra para os países e povos que são vítimas dela. No caso do Brasil, pode conduzi-lo mais rapidamente para a argentinização. Ao causar tal desastre, o mercado salva bilhões de dólares de seus membros, conduzindo-os em segurança para ganhar dinheiro em outras plagas. Diante disso, piadas sem graça do presidente FHC, recomendando calmantes, ou apelos e promessas de quem quer que seja, procurando evitar o nervosismo do mercado, terão o mesmo efeito de um remédio errado num doente terminal.

O deus Mercado pouco se lixa para os sacrificados. Ao contrário, é deles que ele se alimenta. Ele só parará quando não houver mais lucros a realizar, ou quando uma força maior, ou tão poderosa quanto ele, o enquadrar. O resto é tinta de jornal jogada fora.

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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