A joia da coroa

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | A joia da coroa, n. 222, s/d.

 

 

O governo, apesar de tudo, vendeu o Banespa, a jóia da coroa, segundo a gerência geral do FMI para o Brasil. E até pode-se dizer que vendeu bem, já que oferecia barato, mas a voraz realeza espanhola topou pagar duas vezes mais, para impedir que algum outro aventureiro a tomasse. É verdade que o BC teve que evitar a queda do dólar e salvar o pobre Santander de desembolsar alguns milhões a mais. Como o lema de FHC sempre foi “salvai os pobres banqueiros cortando na carne dos que se fingem desvalidos”, evitou-se o prejuízo.

Assim, foi preciso mais de trezentos anos para vermos a história repetir-se, com espanhóis e portugueses competindo, novamente, com as potências industriais pelos domínios brasileiros. Mas, agora que a jóia da coroa se foi, o que sobra para o governo fazer caixa e fingir que as contas externas não foram tão mal? O próprio trono? A Amazônia, como sugeriu cinicamente o candidato Bush? A Petrobrás? O Banco do Brasil?

A gerência brasileira do FMI vai continuar provando que pode pagar 30 bilhões de dólares anuais em serviços da dívida, mas não pode separar uns 4 ou 5, ou mesmo 6 bilhões, para elevar o salário mínimo e minorar as condições de pobreza extrema dos brasileiros. Ela não acredita nessa pobreza, do mesmo modo que o ministro da educação não acredita que afundou ainda mais a educação brasileira. E seu chefe não se considera nenhum Menem, nem Mahuad, nem Fujimori. E não enxerga nenhum Chávez no Brasil.

Os membros dessa gerência, que tratam a coisa pública como coisa e não como pública, pretendem arrancar o que ainda houver de valioso neste Brasil, que parece inesgotável, para manter a contabilidade de acordo com as regras da matriz. Consideram que há quinhentos anos este país é saqueado, mas ainda não afundou. E que seu povo jamais foi capaz de dar um basta.

Sinais das urnas, briga de foice dos aliados no poder, indícios de desagregação do Estado e do tecido social, cordobaços e similares na Argentina em bancarrota, nada disso faz tremer sua disposição de realizar os sacrifícios rituais aos deuses das finanças e do poder econômico. Fluxos internacionais de capitais voláteis e erráticos, ventos da paciência popular mudando, fundamentos da economia cada dia menos sólidos, nada disso abala a turma treinada nas escolas da agiotagem e da especulação de Washington e New York. Não estão nem aí.

E, cá entre nós, por que deveriam estar? Os que deveriam opor-se a eles com táticas de mobilização popular se perdem em manobras personalistas para verem quem serão os cabeças de chapa em 2002. O próprio povão, apesar de alguns sinais alentadores, como a greve dos metalúrgicos (ainda existem operários, e se movem, quem diria?) e outras lutas populares, ainda desafoga seu descontentamento a esmo.

Não há dúvida, eles ainda vão tentar vender muito mais do que a jóia da coroa para que a gente afinal descubra que Fujimori e sua gangue são fichinha diante da equipe que botaram no Brasil.

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