A Índia e nós

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | A Índia e nós, n. 381, 25 jan. 2004.

 

 

Lula viaja para a Índia, o que não agrada participantes do Fórum Social Mundial, em Bombaim. Para eles, como foi noticiado, “as mãos que Lula irá apertar estão cheias de sangue”, numa referência ao primeiro-ministro indiano, do partido nacionalista BGP. Então, pergunta uma brasileira presente ao grande evento popular, “como fica o comprometimento do Brasil com a defesa dos direitos humanos?”.

Realmente, esta é uma questão séria, a ser seriamente discutida por todos os movimentos sociais: como deve se comportar um governo de esquerda, diante de Estados nacionais governados por partidos de direita, particularmente se tais partidos cometem ou estimulam atrocidades contra minorias étnicas e religiosas? Deve cortar relações com tais Estados nacionais? Deve, em função da defesa dos direitos humanos e democráticos, evitar que o interesse comercial prevaleça e cortar os laços e fluxos econômicos entre as nações?

Diante de uma resposta positiva, seria conveniente ser coerente. Por que manter relações com os Estados Unidos e com a Inglaterra, diante das atrocidades que seus governos, republicano e trabalhista, praticam no Iraque, e da discriminação que crescentemente impõem aos imigrantes provenientes do terceiro mundo? Por que manter relações políticas, econômicas e comerciais com Israel, diante do verdadeiro genocídio a que o governo direitista de Sharon submete o povo palestino? Por que incrementar relações econômicas e políticas com aqueles países árabes que são governados por déspotas feudais? Por quê…?

Haveria uma lista a considerar. Um ingrediente adicional e complicador seria o fato de que parte da opinião pública de países do primeiro mundo acusa o governo brasileiro de ser leniente com os abusos contra crianças e idosos, apesar da legislação existente. Em outras palavras, se os Estados nacionais forem submetidas ao crivo das ações que seus governos momentâneos praticam internamente, as relações internacionais se tornarão caóticas. Grande parte da atual instabilidade internacional se deve justamente ao fato de que os Estados Unidos, sob alegações muito semelhantes às daqueles ativistas populares do Fórum, pretendem impor ao resto do mundo a “sua” democracia e “sua” visão de direitos humanos.

O Estado brasileiro, representado por Lula, apertará a mão do Estado indiano, representado por Atal Bihari Vajpayee. A relação entre esses Estados pode contribuir para o desenvolvimento econômico (o que vai muito além dos “interesses comerciais”) e para o intercâmbio cultural e político de ambos os povos. Seria muita pretensão supor que a presença de Lula legitimará algo além disso. Mesmo porque, se cabe ao povo brasileiro, juntamente com o governo Lula, liquidar os abusos contra crianças e idosos (para ficar no mínimo), cabe ao povo indiano, juntamente ou contra seu atual governo, liquidar as perseguições e atrocidades de hinduístas contra muçulmanos, cristãos e outras minorias religiosas.

 

Wladimir Pomar é analista político e escritor.

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