A imperiosa realidade

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | A imperiosa realidade, n. 529, 09 dez. 2006.

 

 

Qualquer análise, mesmo superficial, do estágio alcançado pelas forças produtivas no Brasil mostra que suas cadeias produtivas são pouco densas, cheias de buracos, inexistindo uma estrutura científica e tecnológica que sustente seu processo de contínuo desenvolvimento. O capitalismo brasileiro aprofundou as disparidades e os desequilíbrios econômicos históricos do país.

Os socialistas brasileiros, estejam eles no PT, PCdoB, PSB ou outros partidos, se quiserem construir um programa mínimo para superar a crise brasileira, precisarão partir das condições reais existentes hoje no Brasil. A primeira delas talvez seja não apenas a constatação de que o capitalismo é predominante, sendo fortemente hegemonizado pelas corporações privadas (verticalizadas financeira, industrial e comercialmente), mas também que esse capitalismo apresenta uma particularidade extremamente desafiante.

O capitalismo tupiniquim transformou os latifúndios nas plantations modernas do campo brasileiro, expropriando das terras os pequenos e médios proprietários sem condições de competir com elas. E faz com que as grandes empresas modernas destruam constantemente, tanto pela via econômica, quanto jurídico-administrativa, as micros e pequenas empresas de tecnologias tradicionais. Aparentemente, é um capitalismo avançado e inovador.

Esse capitalismo, porém, não desenvolveu plenamente as forças produtivas que cabem na sociedade brasileira. Qualquer análise, mesmo superficial, do estágio alcançado pelas forças produtivas no Brasil mostra que suas cadeias produtivas são pouco densas, cheias de buracos, inexistindo uma estrutura científica e tecnológica que sustente seu processo de contínuo desenvolvimento. O capitalismo brasileiro aprofundou as disparidades e os desequilíbrios econômicos históricos do país.

Além disso, vem gerando, há anos, um exército industrial de reserva hipertrofiado, cuja perspectiva de trabalho e emprego tem se estreitado constantemente. Hoje, mesmo que o país alcance índices de crescimento menos medíocres, a absorção da força de trabalho será insignificante, frente aos milhões que se encontram fora do mercado efetivo de trabalho. Em outras palavras, o capitalista tupiniquim vem gerando uma situação insustentável, expressa principalmente no crescimento do banditismo urbano.

Em outras palavras, esse capitalismo está chegando a seus limites. Porém, como existem enormes disparidades no desenvolvimento das forças produtivas do Brasil, o capitalismo, como relação social imprescindível para elevar as forças produtivas de níveis atrasados a níveis avançados, ainda não esgotou suas potencialidades. Acabar com um tipo de capitalismo, sendo obrigado a recriá-lo para desenvolver as forças produtivas e criar as condições para a existência de um tipo superior de sociedade, não faz parte dos manuais doutrinários socialistas. Mas esta é uma das contradições da imperiosa realidade brasileira, com a qual os socialistas se confrontam.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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