A gota que faltava

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | A gota que faltava, n. 206, s/d.

 

 

Dizem as notícias que FHC está aliviado com o bom desempenho de seu homem de ouro na sub-comissão que investiga o caso TRT. Só mesmo onde tráfico de influência em órgãos públicos, troca de favores ilegais entre um representante presidencial e um juiz ladrão, relações de amizade, para obtenção de informações, com um senador corrupto envolvido com o juiz ladrão e sinais exteriores de riqueza fulgurante não são encarados como crimes ou atos passíveis de investigação, respostas como as do ex-secretário geral da presidência podem ser consideradas precisas e convincentes. Convincentes para quem? Para o PSDB, partido do presidente? Para o PFL e PMDB, que agora inverteram o quadro político e têm o chefe do governo como refém? Para aquela mídia que, mesmo fingindo uma análise objetiva da situação de FHC, se empenha em limpar as fitas e tirar Eduardo Jorge do foco, por saber que uma investigação séria dos negócios antigos e atuais do ex-secretário geral pode acabar com o governo e levar de roldão o atual bloco de poder?

Que o governo e o bloco dominante foram competentes na montagem do circo e na preparação de seu trapezista, não há dúvidas. O elenco treinou com afinco e atuou com precisão. Tirando o atestado de honestidade dos empresários para o presidente, que mostrou do que ele está mesmo precisando, o resto funcionou a contento. Mas em tudo existe a maldita gotinha, e Eduardo Jorge parece ser a gota de desconfiança que faltava para transbordar o copo dos descontentamentos, insatisfações e frustrações em relação FHC.

Por mais que o circo da sub-comissão do Senado procure dar credibilidade a um depoimento de atividades capituladas, no mínimo, como crimes de responsabilidade; por mais que se procure convencer a opinião pública de que Eduardo Jorge nada fez de irregular; por mais que o governo esbanje energia, afrouxando as fivelas da economia e criando uma aparência de crescimento da produção e das exportação e queda dos juros, da inadimplência e do desemprego; por mais que seja tentada a desmoralização dos procuradores públicos; e por mais que os partidos dominantes hajam compreendido que a queda de FHC representa sua própria queda e tenham decidido não abandoná-lo, só por milagre o governo não será obrigado a beber aquele copo de amarguras.

Primeiro, porque o governo não pode escapar da sina de dar tiro nos próprios pés e gerar 70% das más notícias. Ao aplicar uma política que beneficia exclusivamente aos grandes grupos econômicos estrangeiros e seus associados nacionais, cria inevitavelmente mais contradições com o povo e no seu próprio bloco. Não pode, pois, deixar de aumentar os descontentamentos e insatisfações e, também, as dissensões.

Segundo, porque a oposição política chegou no limite de sua própria benevolência com o desgoverno de FHC, como mostram as mais recentes manifestações de suas lideranças. Continuar deixando que o poder pratique os desmandos e depois os remende a seu bel prazer, a pretexto de não jogar o país na ingovernabilidade, tornou-se um perigo para a própria sobrevivência da democracia brasileira. Então, chega!

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